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Terça-feira da semana passada foi dia de passear na Livraria Cultura. Afinal de contas, a livraria é considerada um verdadeiro playground para todos os amantes dos bons livros, do bom atendimento e, claro, das artes no geral.
Sempre demoro um tempo considerável nas minhas prateleiras favoritas: a de literatura em língua inglesa e, claro, na de quadrinhos. Também não é à toa que preciso tirar praticamente uma tarde de folga toda vez que vou lá: as inúmeras opções na gigantesca área forrada de prateleiras carregadas de livros, DVDs e vinis!
No fim da tarde, depois de horas caminhando, escolhendo livros e enchendo uma cesta cheia deles, precisava escolher quais, afinal de contas, levaria para casa. Foi quando lembrei que, em março desse ano, li um informativo da Companhia das Letras anunciando que a editora publicaria a graphic novel Bordados, da iraniana Marjane Satrapi, conhecida pelo seu famoso Persépolis — narrativa autobiográfica de sua vida no Irã durante a revolução e de sua posterior ida a Paris.
Li a sinopse e achei interessante. Decidi levar e não me arrependi, pois a história é fantástica:
Como é costume no Irã, depois do almoço de família, as mulheres se reúnem ao redor do samovar (uma espécie de chaleira) para rir, contar histórias e, claro, fofocar. Mas é claro que elas não se reúnem apenas para fazer “bordado”, “tricô”, “crochê” ou outro tipo de atividade que envolve linha e agulha.
O mais interessante é que, naquela sociedade, o “bordado” é como eles chamam a cirurgia de reconstituição do hímen, cirurgia comum naquele país, feita por muitas mulheres que não querem abrir mão da vida sexual antes do casamento. A conversa, então, gira em torno desse assunto e de demais questões concernentes ao amor, ao sexo, ao casamento e, claro à situação das mulheres iranianas das diversas gerações presentes na conversa retratada por Satrapi.
Temática recorrente na obra da cartunista, as relações familiares e os papéis de gênero na sociedade iraniana ganham tons humorísticos quando passados pelo traço de Satrapi. As mulheres ali desenhadas contam histórias engraçadas sobre as suas experiências sexuais (algumas antes do casamento) e sobre a vida conjugal com seus parceiros, seja ela bem sucedida ou não.
Ler Bordados é uma delícia do início ao fim. E é impossível não rir das piadas trocadas entre essas mulheres tão diferentes umas das outras. Quem leu Persépolis vai lembrar do carinho com que Marji (Marjane) escreve e desenha sobre sua avó com seu traço inconfundível. Além disso, o traço de Bordados é um pouco diferente daquele utilizado em Persépolis. Embora o primeiro pareça mais borrado que o segundo, as histórias são igualmente encantadoras em preto e branco.
Enquanto ria com os diálogos da graphic novel, não conseguia parar de pensar na situação das mulheres que lá vivem, vigiadas por um regime totalitário e controlador, buscando na arte e na literatura os meios para mostrar ao resto do mundo (ou, eu diria, ao mundo Ocidental) sua situação, seus medos, suas imposições, seus pensamentos e, claro, seus desejos de liberdade para amar e descobrir o prazer que seus corpos podem oferecer.
Desejo a todos uma ótima leitura!
Edição:
SATRAPI, Marjane. Bordados. Tradução de Paulo Werneck. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Valor aproximado: R$ 35







Adorei a dica! Passarei por aqui outras vezes.