Conheça Rango!

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Camaleão, forasteiro, lenda. Este é Rango, o improvável herói do longa homônimo de animação, primeiro da tríade Paramount/Nickelodeon Movies/Industrial Light and Magic, e primeiro a ser dirigido por Gore Verbinski (diretor do excelente O Chamado e da franquia Piratas do Caribe), que estreou ontem nos cinemas brazucas.

 

A história gira em torno de um camaleão de estimação (voz de Johnny Depp) que tem sua vida mudada após ser perdido pelos seus donos nas poeirentas estradas do Deserto de Mojave. Tendo que se virar no clima árido e com uma enorme crise de identidade, o mascote ainda enfrenta os perigos de uma cidade habitada por outros bichos menos simpáticos, que sofre com as visitas de uma faminta água e de uma temível cascavel, além dos problemas com a calamitosa seca.

 

 

Com o velho-oeste como pano de fundo, Rango mostra-se uma animação diferenciada em todos os seus aspectos. Embora tenha um camaleão engraçado como protagonista, é inegável a verve adulta e complexa que permeia pela obra, que emula os velhos filmes de faroeste com uma destreza muito maior que a de uma simples homenagem. A própria direção de arte de John Bell (colaborador das diversas áreas de arte de quase todos os filmes bons que você já assistiu dos Anos 80 para cá) encarrega-se de imprimir elementos do oeste selvagem e dar uma verossimilhança devastadora ao filme, tanto no aspecto da pequena cidade (que se chama Poeira e expõe bem o porquê), quanto nos de seus habitantes: velhos lagartos, aves, roedores e outros bichos que, de tão bem caracterizados como aqueles personagens que pululavam pelos antigos bang-bangs (o apache, o prefeito, o fazendeiro velho, o agente funerário, etc.), podem assustar as crianças mais impressionáveis (para se ter uma idéia, um dos personagens tem uma flecha atravessada no olho direito).

 

 

A excelente fotografia do filme supervisionada por Roger Deakins (nominado ao Oscar deste ano por Bravura Indômita) coroa esta ode ao faroeste com belíssimos tons arenosos e sombras que marcam os desgastes dos rostos surrados dos personagens, enfatizados pelo close-up certeiro de Verbinski, que dirige Rango como se nunca tivesse feito outra coisa na vida a não ser comandar animações. Com eficiência, o diretor pega os elementos clássicos do gênero – o xerife, os duelos, o saloon, a bandidagem e a decadência – e os imprime na narrativa de forma orgânica, entregando takes e peculiaridades que tiram sorrisos saudosos dos fãs de western (inserts em elementos de cena característicos como – por exemplo – o relógio da igreja, ou o famoso travelling descortinando por entre as pernas do pistoleiro, mostrando o adversário ao longe), e cenas que arrancam gargalhadas dos demais. Essas mesmas cenas ganham status de épicas ao serem agraciadas com a trilha sonora arrebatadora de Hans Zimmer (outro nominado ao Oscar deste ano, mas por A Origem), que evoca o heroísmo dos acordes imortalizados pelo mestre Ennio Morricone.

 

 

Além de uma convincente trama que costura a situação precária da cidade com os dilemas pessoais de Rango, o roteiro de John Logan também surpreende ao utilizar-se – e muito bem – de inúmeras referências cinematográficas (não apenas dos faroestes, mas também gerais) para contar a sua história. Dos westerns spaghetti à Chinatown, de Star Wars a O Senhor dos Anéis, de Arizona Nunca Mais a Medo e Delírio em Las Vegas, tudo é combustível para presentear os mais atentos cinéfilos e enriquecer uma história que se baseia, acima de tudo, no auto-descobrimento do personagem título, que ganha seu nome e sua fama graças a uma história de pescador e uma garrafinha de suco de cactus.

 

E se falamos de caracterizações mais acima, como não falar do próprio camaleão protagonista? Rango é franzino, desajeitado e é o último em quem pensaríamos para proteger uma cidade (até seus olhos se parecem com aqueles óculos fundo-de-garrafa que vemos por aí). Vê-lo encarando aventuras com a pretensão de um ator, a covardia de suas pernas velozes e uma camuflagem que – reparem – nunca funciona direito, rende boa parte da diversão. Ao contrário de quase todos os seus coadjuvantes, o camaleão foi visualmente criado para a criançada, garantindo a simpatia do público mirim (e a classificação livre), mesmo com algumas cenas violentas (como a tensa visão do tatu atropelado). Não estou habilitado a dar meu parecer sobre a versão legendada (com vozes de Johnny Depp e Cia.), mas é inegável a semelhança das expressões faciais de Rango com as do ator que o dubla. Sobre a dublagem nacional, está de ótima qualidade (embora seja sempre prudente procurar por uma sala de cinema com um bom sistema de som para esses casos).

 

 

Todos esses predicados não fazem de Rango apenas uma excelente animação. Trata-se de um exercício de cinema, tecnologia e narrativa fascinantes que – além de nos entregar um personagem cativante e revitalizar, com bastante criatividade e para todos os gostos, o gênero western – faz da estréia de Gore Verbinski nas animações o melhor filme do ano, pelo menos até o momento.

 

P.S.1: Não tem como encerrar um texto sobre Rango sem mencionar o quarteto de corujas mariachis que aparecem ao longo do filme para narrar a história. Impagável!

 

P.S.2: Menos ainda sem falar da aparição do Espírito do Oeste para Rango, onde qualquer fã real de faroeste sai abobalhado. Impagável e emocionante.

 

 

 

Título: RANGO

 

Direção: Gore Verbinski

 

Elenco (vozes): Johnny Depp (Rango), Isla Fisher (Srta. Feijão), Bill Nighy (Jake Cascavel), Alfred Molina (Tatu), Abigail Breslin (Priscila), Ned Beatty (Prefeito John);

 

Duração: 107 min.

 

Gênero: Animação/Western/Comédia

 

Ano: 2011

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