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Quando decidi escrever sobre o DVD (inclua-se aqui Blu-Ray, VOD, downloads e DVRs também) versus a TV em tempo real, não imaginei que ouviria tantas opiniões inflamadas em defesa de ambos os times. Em função disso, decidi fazer este artigo em duas partes, para que cada lado tenha a chance de apresentar sua defesa. Comecemos então com a TV em tempo real.
Em 2004, quando realizei uma pesquisa com fãs brasileiras de Sex and the City para minha dissertação de mestrado, a maioria das participantes concordava que o appointment (o “compromisso” da audiência com um programa) era uma parte fundamental da sua relação com a série. Estas fãs não abriam mão de assistir Sex and the City em tempo real – na época transmitido pelo Multishow – pelo prazer de poder compartilhar sua opinião com amigos e colegas de trabalho no dia seguinte. Para os fãs mais ávidos, assistir em tempo real é uma parte crucial da experiência televisiva. É como um ritual, uma experiência coletiva quase religiosa que o DVD não pode proporcionar.
No país das novelas, onde a cultura do “você viu ontem à noite?” já faz parte do DNA da população, o prazer do programa em tempo real fala mais alto, mesmo com as desvantagens do intervalo comercial e da obrigação de estar “preso” à TV num determinado dia e horário. É como se a audiência brasileira tivesse um senso de appointment mais forte do que outras culturas. Afinal, que brasileiro espera a novela sair em DVD para assistir?
Bem, ao menos esta foi minha conclusão em 2004… Mas nos últimos seis anos, algumas variáveis entraram nessa equação, como o boom dos box de séries, da banda larga e das redes sociais. Na época da pesquisa, apesar de verbalizar sua oposição aos DVDs, lembro que as respondentes deliraram quando apresentei a bela caixa rosa com o boxset completo de Sex and the City, trazida da Inglaterra. As locadoras, ao menos em Porto Alegre, ainda não disponibilizavam os DVDs da série, e as primeiras temporadas eram encontradas apenas em mega livrarias, a preços altíssimos. Blogs sobre TV, então, eram raríssimos. E eis que apenas dois anos depois os box de séries invadiram as locadoras e livrarias no Brasil, da mesma forma que já o faziam desde o ano 2000 no hemisfério norte.
Portanto, se fosse repetir minha pesquisa hoje, me pergunto se a opinião daquelas fãs seria a mesma. Talvez algumas delas ainda preferissem a TV em tempo real, e fizessem parte da turma que assiste e twitta, como se estivessem dividindo o sofá da sala com os milhares de telespectadores. A tal gratificação, que em 2004 acontecia no escritório no dia seguinte, hoje acontece em paralelo à transmissão.
Outra parte talvez hoje pertencesse à turma dos afoitos downloaders, que mal podem esperar para baixar um novo episódio logo após ele ser exibido no seu país de origem.
E talvez uma outra parte fizesse agora parte do grupo que compra online ou coloca o nome em lista de espera na locadora para ser a primeira a alugar o DVD. Afinal, o DVD é uma parte palpável da série, que pode ser assistida infinitas vezes. Uma relíquia, um objeto de fetiche (como a caixa de Sex and the City), que pode ser colecionada e preservada com carinho após o finale de um programa de estimação.
Mas isto já é assunto para a segunda parte deste artigo, “Em defesa do DVD”.
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Sheron Neves é publicitária, mestre em História do Cinema e doutoranda em Estudos de Televisão, ambas pela Birkbeck, University of London. Tem também um blog chamado Meditations in an Emergency onde escreve sobre TV, cultura transmídia e comportamento da audiência. No Twitter posta novidades, cursos e e-books sobre o tema.
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Pra mim, Internet é simplesmente traduzida como Liberdade. Não somos mais reféns de emissoras de TV ou estúdios de cinema. Eles são os nossos reféns. Bom, não é bem assim. Somos uma mosquinha, mas podemos fazer barulho. A Internet, mesmo não sendo formada por ela, de alguma forma induz a massa, que nem efeito dominó. Controlamos o hype. Agora, os estúdios e cia não podem ser indiferentes e fingir que nada aconteceu.
Mas escrevo esse comentário por causa de uma história que me aconteceu:
Depois que terminou a primeira temporada de The Vampire Diaries, resolvi baixá-la, mas não tinha conhecimento algum de spoilers. Foi uma experiência fantástica. Eu via junto com uma amiga minha, e nós dois discutimos e nos maravilhávamos com o desenrolar da trama, que nos surpreendeu muito (assim como já tínhamos feito com True Blood e Gossip Girl). Hoje, TVD é minha favorita.
Com o tempo, passei a criar um ritual. Assistia à série apenas de noite, para submergir mais no clima de tensão (é difícil manter a tenção, com o barulho do transito de dia…), e tentava, o máximo possível, ver cada episódio com o intervalo de um dia, pelo menos, por causa dos magníficos cliffhanger da 1ª temporada. Sempre, acompanhado por uma xícara de café.
Acho que o fundamental é ter um compromisso consigo mesmo, não com um horário ou uma emissora. A TV não é mais um móvel, e assisti-la não é mais uma ocasião (assim como era tirar uma fotografia). É claro que sempre existirão os saudosistas, assim como haverá gente que sentirá saudade de baixar séries num futuro distante. Assim como a literatura, a televisão está se tornando uma experiência mais pessoal, conseqüentemente, solitária no ato, mas coletiva no hábito.
Adorei a frase: “Não somos mais reféns de emissoras de TV ou estúdios de cinema. Eles são os nossos reféns”. Isso é verdade, a convergência tecnológica é na verdade uma convergência cultural, e o poder está trocando de mãos, bem como o Henry Jenkins já dizia em 2005. Não há dúvidas que eles estão tendo que se adaptar a este novo espectador/consumidor tão opinado, exigente, imediatista, e “spoiled for choice”.
Só não sei se concordo que assistir TV não é mais uma ocasião. Nos anos 80 com a chegada do videocassete também se falou desta liberdade, pois não era mais necessário ficar “preso” a TV (desde que se soubesse programar o timer do vídeo). E desde então o VHS/DVD/e todos os tipos de recording devices não tinham experimentado um concorrente tão à altura. As mídias sociais têm o poder de oferecer um grande diferencial, não podemos subestimar o prazer de comentar em tempo real. O Twitter e os apps como o Tunerfish e Yap.TV podem trazer de volta um hábito antigo, o de ficar preso ao horario da transmissão. Mas este “preso” não precisa ser em frente à TV, pois as nvas tecnologias móveis permitem este deslocamento. Mas só o tempo dirá. Estamos aprendendo ainda a lidar com todas estas mudanças. Tudo que podemos fazer é especular.
Adorei seu comentário! Obrigada!
PS: Vampire Diaries também é um dos meus favoritos
Parabéns pelo artigo Sheron!!
A propósito, amei o “TVD”. Vou usar hein? Te pago os direitos autorais em chimarrão e Pastelina