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Por um completo acaso ao que está ocorrendo no Japão, assisti – neste fim de semana – ao filme Kokuhaku (que recebeu o título de Confessions aqui no ocidente), longa-metragem que representou a terra do sol nascente nas eliminatórias do Oscar 2011 para Melhor Filme Estrangeiro e que, assim como o brasileiro Lula – O Filho do Brasil, acabou não figurando na grande festa do cinema mundial.
Para nossa sorte, as similaridades de Kokuhaku com o filme de Fábio Barreto acabam por aí, já que este suspense nipônico é excelente e apenas não entrou na competição porque não é a cara do Oscar (o que, nos últimos tempos, tem sido uma qualidade). Na trama, uma professora de colegial, em seu último dia de trabalho, confessa – para uma turma caótica – que a morte de sua filha de quatro anos na piscina da escola não foi acidental, e mais: que os assassinos da criança são dois alunos daquela sala.
Embora toda esta sinopse aconteça nos primeiros 20 minutos de filme (incluindo a revelação da identidade dos assassinos), é justamente depois disso que Kokuhaku ganha dinamismo, ao abordar a vida desses pequenos homicidas antes, no momento do crime e depois do fatídico último dia de aula da professora Moriguchi, que não chama a polícia (pois o Japão, segundo o filme, possui uma lei juvenil branda), mas deixa os assassinos a mercê do julgamento da própria turma. Neste ponto, vemos que a realidade da vida escolar japonesa não é muito distante da nossa, com crianças maldosas, agressivas, sem a mínima atenção para com a aula ou para com qualquer senso de ordem, adeptas das tecnologias quase ao extremo (como vemos nos incontáveis SMSs que eles mandam entre si) e mantendo o bullying como prática recreativa constante.
Este aspecto escolar – e toda a concorrência e peso que a sociedade concentra cada vez mais nessa época da vida – é brilhantemente abordado pelo roteiro e pela sensibilidade do diretor Tetsuya Nakashima, que se encarrega de mostrar não apenas os motivos que levaram Shuya e Naoki a praticarem o ato, mas como esse sentimento se desenvolveu, um em casa, outro na escola, e ambos pelo abandono e pela simples necessidade de se destacarem de alguma forma. Da formação da idéia de matar à escolha do alvo, da perseguição que sofrem pelos colegas vingativos aos problemas psicológicos, tudo é amarrado e assustadoramente crível, ganhando força dramática ao separar alguns blocos do filme em “confissões” dos personagens.
Sendo um filme protagonizado essencialmente por crianças, Kokuhaku se utiliza também das muitas coisas que fazem a cabeça dos adolescentes hoje em dia: a trilha sonora é cercada de músicas ocidentais famosas, os adereços que usam (mochilas da moda, pulseiras, etc), os ídolos midiáticos com os quais se identificam (inclusive os famigerados sociopatas que os jornais cansam em nos conscientizar da existência). A fotografia do filme é formidável, investindo no tom mais frio e no preto-e-branco das locações e dos uniformes escolares (que vejo como uma alusão a vida, onde nada é preto no branco: tudo tem escalas de cinza, inclusive um crime), além de valorizar alguns slow-motions bastante intimistas.
Enumero como único defeito do filme (que, na verdade, alguns espectadores até gostam) a seqüência final de Kokuhaku, que peca ao detalhar demais tudo que se sucede (explicar as coisas milimetricamente é algo recorrente no cinema japonês), e essa sensação de “informação demais” fica ainda maior com a narrativa não linear que permeia o filme. Salvo esta mazela, acredito que Kokuhaku finaliza com um excelente saldo e merece ser visto. Além de ter representado o Japão nas seletivas do Oscar, o filme ganhou o prêmio de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro do Japanese Awards, o principal festival de cinema do Japão.
Kokuhaku é uma das muitas surpresas que o cinema oriental não se cansa de proporcionar. Minha torcida, agora, é para que esta terra tão bonita que é o Japão (cujo cinema sempre me fascinou, como você pode ler clicando aqui) consiga sobrepor esta catástrofe que o aflige e volte a nos brindar com tudo de bom que costuma vir de lá.
Título: KOKUHAKU (Confessions)
Direção: Tetsuya Nakashima
Elenco: Takako Matsu (Yuko Moriguchi), Masaki Okada (Yoshiteru Terada), Yukito Nishii (Shuya Watanabe), Kaoru Fujiwara (Naoki Shimomura), Ai Hashimoto (Mizuki Kitahara), Yoshino Kimura (Mãe de Naoki);
Duração: 106 min.
Gênero: Suspense
Ano: 2010
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