Sobre Liz

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Uma semana se passou desde que o mundo perdeu Elizabeth Taylor, não apenas dona dos olhos mais belos de Hollywood, como também a mais talentosa atriz de seu tempo. Sua beleza nos anos áureos – acentuada por traços finos e sobrancelhas espessas – só encontrou rival em sua história de vida fora das telas, pontuada por toda sorte de acontecimentos: das extravagâncias com roupas inusitadas às jóias do tamanho de laranjas, dos oito casamentos (dois deles com Richard Burton, ator do qual falarei mais adiante) ao pioneirismo das militâncias em prol da causa homossexual e da desmistificação da AIDS (em plenos anos 80, quando a doença era tida como um sinal do apocalipse), dos porres homéricos aos diversos problemas de saúde que culminaram com sua morte por insuficiência cardíaca, Liz sempre teve os holofotes do mundo voltados para si, mesmo que tenha se desvencilhado do cinema há quase duas décadas.

 

 

Liz Taylor, em 2010.

 

O grande diferencial da última diva do cinema em relação às outras atrizes de sua época é que Liz era a soma de todos os atributos que faziam de uma mulher um ícone, combinando talento, beleza e personalidade forte como nenhuma outra estrela do mundo jamais o fez. Para atestar a versatilidade de Liz nas telas, faço um pequeno release sobre o que julgo serem os cinco papéis mais marcantes da atriz, em uma carreira que começou aos 10 anos e que conta com mais de 50 filmes (sendo que muitos deles figuram entre os mais famosos do cinema).

 

Gata em Teto de Zinco Quente

Ano: 1958

Papel: Maggie Pollitt

Sinopse: Adaptado da premiada peça de Tennessee Williams, o filme conta a história de Brick Pollitt (Paul Newman), ex-jogador de futebol americano e alcoólatra que renega sua esposa Maggie (Liz) por um acontecimento do passado envolvendo ela e Skipper, seu falecido amigo e companheiro de jogo. Paralelo a isso, ainda há o ressentimento entre Brick e seu pai Harvey “Big Daddy” Pollitt, que está morrendo de câncer.

Sobre o filme: Como a maioria dos filmes baseados nas peças de Williams, Gata em Teto de Zinco Quente se passa praticamente em uma única grande sequência (o dia do aniversário de Big Daddy) e em um único ambiente (o casarão do patriarca dos Pollitt). Não tem uma grande direção ou produção, deixando tudo a cargo dos diálogos ríspidos entre o trio Brick/Maggie/Big Daddy e eliminando as referências homossexuais da relação de Brick com Skipper, que a peça de teatro continha.

Sobre Liz: Na pele da solícita Maggie “The Cat” Pollitt, a atriz recebeu sua segunda indicação ao Oscar de Melhor Atriz, interpretando uma esposa meiga e carinhosa que é sistematicamente enxotada pelo marido amargurado. Há quem diga que Liz Taylor nunca esteve tão bela em um filme (pessoalmente, acho-a mais linda no próximo filme da lista).

 

Disque Butterfiled 8

Ano: 1960

Papel: Gloria Wandrous

Sinopse: Baseado em livro de John O’Hara, a trama gira em torno de Gloria Wandrous (Liz), uma moça popular e de hábitos duvidosos que acaba se envolvendo com um homem (Laurence Harvey) infeliz em seu casamento.

Sobre o filme: Um dos meus filmes prediletos na carreira de Taylor, Disque Butterfiled 8 escapa do lugar comum ao humanizar a relação adúltera dos protagonistas sem cair no clichê dos finais felizes ou das saídas fáceis. Laurence Harvey está em uma excelente fase e protagoniza cenas emblemáticas com Liz (principalmente o clímax, onde seu personagem – bastante embriagado – e a protagonista se encontram em um bar).

Sobre Liz: Primeiro Oscar da atriz, que interpreta uma garota infeliz em sua realidade de mulher fácil com um magnetismo impressionante. Aqui, Liz imprime uma dignidade marginal fascinante a uma personagem que – apesar de seu comportamento reprovável – busca por respeito. Também descobrimos, neste filme, que ninguém pisa nos calos de um homem como Liz Taylor e que ela “não está a venda”.

 

Cleópatra

Ano: 1963

Papel: Cleópatra VII Thea Filopator

Sinopse: O filme aborda a história de lendária Cleópatra (Liz), da sua ascensão ao trono egípcio, até sua morte ao lado do general romano Marco Antônio (Richard Burton).

Sobre o filme: Um clássico com 4 horas de duração, Cleópatra marcou pela opulência de sua produção (orçada em US$ 44 milhões, uma quantia absurdamente alta para a época), por quase ter falido a 20Th Century Fox (mesmo sendo cultuado hoje, o filme foi um fracasso de bilheteria), além de consolidar Liz Taylor como a primeira atriz a receber um milhão por sua atuação. É um bom filme, como todo longa sobre o império romano costuma ser.

Sobre Liz: Provavelmente o papel mais famoso de Elizabeth Taylor (mas não necessariamente o melhor), Cleópatra é tão Liz Taylor que fica difícil não acreditar em reencarnação: ambas eram belas, ardilosas (basta lembrar do casamento de Liz com o cantor Eddie Fischer, após a atriz “roubá-lo” da amiga e colega de trabalho Debbie Reynolds) e de temperamento forte. Falando em casamento, o filme marca o primeiro trabalho de Liz com Richard Burton, com quem se casaria (2x) e com quem contracenaria em outros 7 filmes.

 

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?

Ano: 1966

Papel: Martha

Sinopse: Também adaptação de peça (desta vez, de Edward Albee), Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? traz o turbulento casal George (Richard Burton) e Martha (Liz) que – a pedido do pai de Martha – convidam o casal Nick (George Segal) e Honey (Sandy Dennis) para passar a noite em sua casa para uma suposta confraternização, contudo, o que se segue é um clima de tensão regado a bebedeiras e mindgames, onde George e Martha exorcizam seus demônios e colocam na mesa detalhes sórdidos de suas vidas.

Sobre o filme: Dirigido pelo estreante e já excelente Mike Nichols (que viria a dirigir outros clássicos como A Primeira Noite de um Homem, Uma Secretária de Futuro e, mais recentemente, Closer – Perto Demais, que – diga-se de passagem – lembra muito este longa de 66), o filme se constitui em um drama psicológico dos mais intensos e pontua a melhor atuação do casal Liz/Burton, que apresenta uma química tão formidável que muitos acreditam piamente que a obra é um retrato da própria vida dos atores, que ainda eram casados na época das filmagens.

Sobre Liz: Para interpretar a perversa e explosiva Martha, Liz engordou e pintou seus cabelos de um loiro mequetrefe, que enfatizou o aspecto vulgar da personagem. Essa transformação, aliada a performance perfeita da atriz (e a melhor, na minha opinião), lhe garantiram seu segundo e merecido Oscar de Melhor Atriz.

 

A Megera Domada

Ano: 1967

Papel: Katharina

Sinopse: Nem Tennessee, nem Albee: desta vez, a peça adaptada é de Shakespeare e conta a história de Katharina (Liz), uma moça de família rica que não consegue arrumar pretendentes devido ao seu gênio forte, até que um homem pobre e truculento (Richard Burton) surge para tentar conquistar a donzela.

Sobre o filme: O diretor Franco Zeffirelli (especialista em adaptações de Shakespeare para o cinema) entrega um filme leve, com uma ótima produção e direção de arte. Curiosamente, Zeffirelli queria seus compatriotas Sophia Loren e Marcello Mastroianni nos papéis protagonistas, mas não só acabou ganhando Liz e Burton, como o casal entrou no projeto como co-produtores.

Sobre Liz: Uma das poucas incursões de Liz Taylor na comédia (ao menos em sua fase adulta), A Megera Domada mostra que as mudanças físicas da atriz no filme anterior foram apenas um susto (mesmo que os quilinhos a mais ainda sejam visíveis). Embora Burton – que faz o papel de Petruchio – seja o responsável pelas melhores cenas, é inegável que Liz também se sai muito bem fazendo rir, e que a química do casal segue inabalada.

 

É óbvio que outros filmes protagonizados por Liz mereciam estar nesta lista (Assim Caminha a Humanidade, De Repente no Último Verão, Gente Muito Importante, Um Lugar ao Sol, etc, etc), mas creio que estas cinco obras são mais do que suficientes para mostrar do que Liz Taylor era capaz e o quanto sua consagração como grande atriz é justificada.

 

Já como pessoa, viveu e amou intensamente, transgrediu e lutou pelo que acreditava, brilhou e brindou muito em todos os dias de sua vida. Honestamente, não consigo imaginar um epitáfio melhor que esse. Alguém aí consegue?

 

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