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Maybe the sun will shine today
The clouds will blow away
Maybe I won’t feel so afraid
I will try to understand
Either way
Este é o verso de abertura de Sky Blue Sky, álbum lançado em 2007 pelo Wilco. A harmonia esperançosa dos primeiros acordes aliados à letra meio “whatever” dão a cara do disco todo. Sky Blue Sky é o lado B do seu fantástico Yankee Foxtrot Hotel, a calmaria depois da tempestade.
Wilco é uma banda de altcountry formada pelos membros remanescentes da Uncle Tupelo. Provavelmente ao ler a palavra “country” ali no meio você deu uma estremecida de leve na cadeira e o dedo coçou no botão do mouse pra fechar o navegador, certo? Fica tranquilo, titio explica: Wilco tem sim influências das raízes da música americana, mas faz uma salada de fruta tão grande com outros estilos que aquela vibe malboro fica muito interessante. Dá pra ouvir ecos de Stevie Wonder, Television (grande influência nos arranjos de guitarra, inclusive), Cat Stevens, Neil Young e é claro, Dylan. Tudo isso muito bem casado e com excelentes instrumentistas no rumo das coisas. Experimenta antes de dizer que é ruim, tá? Beleza. Voltemos então ao disco.
Emendada em Either Way, a segunda canção do disco é outra balada suave, com versos cantados em vozes dobradas. Talvez a melodia de You Are My Face seja a que mais lembre uma canção country no disco todo, até o turn depois do refrão, onde a guitarra assume o primeiro plano e o groove toma conta.
A terceira faixa é uma primazia do que as guitarras ainda podem fazer pela música. Em Impossible Germany, Nels Cline estréia como guitarrista da banda neste disco e mostra que a estrada como jazzista lhe rendeu experiência o suficiente pra incorporar um dos mais belos solos nos minutos finais da música. Uma de minhas performances preferidas, diga-se de passagem.
Sky Blue Sky, a música que dá título ao disco é uma canção dylanesca de babar de tão bonita. Escovinha na bateria e um baixo comportado realçam a voz de Jeff Tweedy de forma belíssima.
A quarta canção, Side with the Seeds, joga a gente no miolo do disco, que é onde as coisas esquentam um pouco. Gradativamente a partir dessa canção, as coisas ficam mais agitadas, urgentes, alegres e talvez até nervosas. A própria canção tem essa dinâmica, como se o tempo lá fora estivesse se preparando pra uma tempestade.
Shake it off começa preguiçosa, com tudo começando algo pra parar logo ali. A voz arrastada de Tweedy segue no mesmo ânimo. De repente, esse embalo dá lugar a um jogo mais completo de vozes, cada instrumento começa a falar sozinho, culminando no excelente refrão que sacode tudo.
Please Be Patient With Me estranhamente lembra James Taylor, mas com mais ousadia. Voz e violão fazem o corpo da música que dispensa bateria e se sustenta com muita beleza.
Hate it Here é um grande deboche. A letra fala de um cara que arruma a casa toda pra não sentir falta da mulher que deu no pé. Mas ele sente medo de que quando tiver arrumado tudo, não vai ter passado a saudade que sente dela. Belíssima. E o refrão tem um peso que tem muito eco de Beatles. Grande momento do disco.
Leave Me (Like you found me) despressuriza os momentos mais agitados pra trazer uma declaração de amor suave e tranquila. Momento muito sensível do disco.
As décimas e décima-primeira canções poderiam ser irmãs: Walken é uma canção de cabaré que poderia ser cantada por crianças sem problema algum. Muito animada. Já What Light é uma referência direta a Bob Dylan, qualquer um pode notar. Foi também a canção escolhida pra ser distribuída de graça na web na época do lançamento do disco. Momento forte, quase religioso. Gospel vibes, pra quem curte.
E encerrando o disco, On and On and On, talvez o único momento que arranque lágrimas propositalmente no disco.
Please don’t cry we’re designed to die
Don’t deny what’s inside
On and on and on we’ll stay together yeah
On and on and on
Um final apoteótico e um tanto resignado pra um disco tão esperançoso. No final, se conformar de que todos morreremos e continuaremos juntos se amarra perfeitamente com a esperança nas possibilidades que a primeira música apresenta.
Sky Blue Sky não é um disco de uma audição só. Recomendo ele agora para o inverno que se aproxima. Naqueles dias cinzentos, com uma boa xícara de café e tempo pra ele entrar na cabeça. Espero que ele alcance vocês como me alcançou. Happy new ears.
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