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Fellini 8 ½ (8 ½, 1963), de Federico Fellini, é o segundo filme da parceria do diretor com o ator Marcello Mastroianni, com o qual já trabalhara em A Doce Vida (La Dolce Vita, 1960). Inicialmente, Fellini queria que o protagonista do filme fosse Laurence Olivier, porém optou pelo amigo Mastroianni. Como em A Doce Vida, a personagem principal é marcada por questionamentos e inquietações existencialistas. Ele pode ser classificado como um intelectual em estado de crise, porém é diferente do protagonista de A Doce Vida, visto que o drama da personagem central de 8 ½ está relacionado com uma crise de criação de um artista bem-sucedido profissionalmente – diferente do escritor frustrado do filme anterior. Nesse sentido, é interessante lembrar que paralelamente aos acontecimentos cotidianos da vida do protagonista e às suas recordações de infância, há a presença de vários sonhos reveladores de seus dramas pessoais. Este mundo onírico da personagem reflete, metaforicamente, muitos desejos dele e tem papel fundamental na construção da sua personalidade, justamente por expor questionamentos internos e construir uma ligação com seus conflitos ligados ao dia a dia. A narrativa do filme constrói esse mosaico de fantasias e situações cotidianas, criando um retrato do artista, mais especificamente de um diretor de cinema, em crise criativa.
Guido Anselmi é um cineasta italiano consagrado. Ele adia o início das filmagens do seu próximo trabalho e decide passar um período de descanso num hotel (uma espécie de SPA), buscando sair de uma estagnação criativa. Na cena que abre o filme, um homem está dentro de um carro, no trânsito movimentado. Ele veste um chapéu e não vemos seu rosto, apenas suas costas. Em alguns instantes, os outros veículos param e cada passageiro dirige o olhar a ele que se torna o centro das atenções e entra em estado de mal estar: está trancado dentro do veículo com dificuldade para respirar, pois o carro está sendo invadido por uma espécie de vapor. O diretor Fellini se utiliza do recurso freeze frame por alguns segundos nesta cena que influenciou uma passagem de Memórias (Stardust Memories, 1980), de Woody Allen.
De repente, de forma misteriosa, ele se encontra fora do veículo, voando com os braços abertos. A personagem continua voando, agora sobre o mar. Ele está preso numa corda segurada por um homem, enquanto outro sujeito observa no fundo. Observa-se na praia, também, uma grande estrutura de ferro que ganhará muito destaque no decorrer do filme. O homem puxa a corda. A personagem cai. A personagem acorda deste pesadelo num quarto, onde é amparada por um médico e uma enfermeira. O doutor pergunta sua idade: quarenta e três anos. Sobre sua cama, observam-se fotos de lindas mulheres. Nesse quarto entra um homem de perfil sério, que conversa com Guido. Pela primeira vez, vê-se o rosto do protagonista, refletido num espelho. Ele está com olheiras e com olhar muito abatido. É grisalho, tem traços físicos de um homem maduro e bonito.
Na cena seguinte, Guido está ao ar-livre, vestido elegantemente com um terno e usando óculos escuros. Este figurino, acrescido de um chapéu, será usado pela personagem durante a maior parte do filme. No local, idosos fazem fila para receber copos com água oriunda de uma grande fonte. Ele entra na fila. Enquanto espera sua vez, tem uma visão: uma linda moça (Claudia Cardinale), com perfil angelical, vestida de branco, aparece saltitante e serve um copo de água para ele. Guido só volta à realidade, com a voz alta de uma feia mulher que lhe oferece um copo de água também.
O homem de perfil sério, um crítico de cinema, que estava presente no quarto de hotel, reaparece, tecendo comentários a respeito de um filme em processo de elaboração. Guido responde às criticas justificando o adiamento do início das filmagens sendo interrompido por um terceiro homem. Esse é Mezzabota (Mario Pisu), amigo do protagonista, que está acompanhado de uma bela mulher de nome Gloria (Bárbara Steele), sua amante e de idade bem inferior a sua. Guido apresenta o homem de perfil sério para o casal, seu nome é Daumier (Jean Rougeul).
Depois destas conversas matinais, Guido vai até uma estação de trem. Lá ele lê, irritado, as críticas que Daumier fez de seu roteiro para o filme. No local, ele recepciona uma extravagante e falante mulher. Ela é Carla (Sandra Milo), tem 30 anos e é amante dele. Eles seguem para um hotel e almoçam juntos. Guido leva Carla até um hotel diferente do seu, pois quer manter discrição e evitar confusões. Ela fala sobre seu marido, enquanto Guido a escuta, inquieto e entediado. Depois seguem para um quarto onde, num jogo de fantasias eróticas, fazem sexo: ele pede que ela se maquie e faça a curiosa imitação de uma porca, além de pedir que ela saia do quarto e finja não conhecê-lo ao entrar. Os dois se divertem bastante neste jogo.
Depois de se divertir com Carla, Guido começa a dormir – e pela segunda vez no filme seu universo onírico é representado em imagens. No quarto onde está, aparece sua mãe. Sendo este o início do sonho. A imagem do quarto é substituída por outra, onde o cenário é surrealista e cercado por ruínas de concreto. Guido encontra seu pai (Annibale Ninchi) e a sua mãe (Giuditta Rissone). Ambos estão decepcionados com o filho, com se ele fosse uma criança que fizera algo de muito errado. Guido, apesar de fisicamente adulto, está vestido com um uniforme de colégio infantil, parece inseguro e decepcionado, pois não consegue pedir desculpas por algum erro cometido.
Neste mesmo local, numa casa envidraçada e sem móveis, pai e filho recebem a visita de dois homens (eles aparecerão novamente no filme, como produtores envolvidos no projeto cinematográfico de Guido). O sonho vai terminando quando o pai entra num buraco e desaparece. Guido então beija sua mãe e se assusta ao perceber que ela se transformara em outra mulher, a qual aparecerá mais adiante no filme, sendo ela a esposa de Guido.
Após a tarde no quarto de Carla e o sonho com os pais, Guido é visto no saguão do hotel em que está hospedado. Ali, encontra pessoas envolvidas no seu projeto de filme. Dentre elas, está Daumier, escritor e crítico cinematográfico; Madeleine (Madeleine LeBeau), uma bela atriz francesa; Comendador (Guido Alberti), o produtor do filme; Conocchia (Mario Conocchia), o diretor de produção, um jornalista americano (Eugene Walter), dentre outros membros da equipe de filmagem. Enquanto conversa com estes a respeito do seu trabalho, Guido permanece indeciso e agitado, ao mesmo tempo em que faz piadas e brincadeiras com todos. Ele conversa com um membro da equipe de filmagem, a respeito de uma atriz de nome Claudia, a qual quer que faça parte do elenco. Num instante, ele para e admira a beleza de uma mulher muito elegante e bela que passa pelo saguão, deixando-o desconcertado.
Com este grupo de pessoas presentes no local, ele vai a uma festa ao ar-livre no hotel. Guido mantém uma postura muito descontraída, divertindo-se com um nariz de brinquedo, porém, parece bem entediado. Um mágico e uma velha vidente são os animadores da festa, adivinhando o pensamento dos convidados. A vidente lê um confuso pensamento de Guido. Escrevendo num quadro três exóticas palavras: Asa-Nisi-Masa. Essas fazem Guido relembrar seus tempos de criança, quando estava numa casa com várias crianças e era paparicado por duas mulheres. Porém não fica claro o grau de parentesco delas com Guido, mas possivelmente fossem suas tias. O ambiente da casa, um tanto cavernoso, seria inspiração para o alguns cenários de Fellini – Satyricon (Satyricon de Fellini, 1969), de Federico Fellini.
De volta ao saguão do hotel, Guido fala por telefone com Luisa (Anouk Aimée), sua esposa (aquela que aparecera em seu segundo sonho). Ela avisa que viajará para encontrá-lo. Antes de ir para seu quarto, Guido encontra em outro quarto do hotel, pessoas da equipe de filmagem, trabalhando na produção do filme. Lá estão também duas simpáticas garotas, que são apresentadas ao diretor.
Após algumas discussões com a equipe de filmagem, volta para seu quarto no hotel. Lá tem sua segunda visão da mulher da fonte. Ela está vestida como na primeira cena, arrumando sua cama. Ao mesmo tempo em que a observa, ele está criando uma história para seu filme e ela interpretando suas idéias, numa interação entre criador e criatura. Porém, estes momentos de criação antes de trazerem realização para Guido são muito angustiantes. Depois desse insight criativo, ele adormece fatigado, de roupa e tudo, em cima de uma cama cheia de fotografias de atrizes.
Guido é acordado de manhã por sua amante Carla, que pede para ele encontrá-la, pois está com febre. Irritado, comparece até o hotel da amante e dá um pouco de atenção à ela. À tarde, se encontra com um Cardeal (Tito Masisni), com o qual conversa a respeito de uma personagem do filme. O representante da Igreja pouco fala sobre o assunto que interessa ao diretor, discorrendo a respeito de outras questões. Ele pergunta a Guido sobre sua vida conjugal e ele se atrapalha para dizer que não tem filhos. Quando o Cardeal começa a expor suas idéias e entediar Guido, este observa uma mulher gorda passeando num bosque. Esta cena o faz relembrar outro episódio de sua infância: ele e um grupo de amigos escapam de um colégio católico e vão até uma praia. Lá encontram uma exótica mulher, gorda e de maquiagem forte, de nome Saraguina (Eddra Galé). Em troca de dinheiro, ela dança para eles. O garoto Guido se anima e vai dançar com a pitoresca mulher, sendo flagrado por padres do seu colégio. Na seqüência desta recordação de infância, após ser flagrado com Saraguina pelos padres, ele é interrogado por um grupo de clérigos, enquanto sua mãe observa, chorando copiosamente. Cena que serviu de inspiração para outra em Amarcord (idem, 1973), de Federico Fellini, sendo o interrogatório de padres católicos substituído por outro de partidários do fascismo italiano. Além disso, em outra cena, é humilhado diante de seus colegas na sala de aula, usando um chapéu de burro e num refeitório, quando fica ajoelhado diante de todos. Para completar sua punição, confessa para um padre seus pecados.
Na cena seguinte, voltando ao presente, numa espécie de sauna gigante, Guido se depara pela segunda vez com o Cardeal. Não fica claro se esse encontro é fruto da imaginação de Guido ou não. A conversa é uma espécie de confissão, na qual o protagonista expõe sua infelicidade pessoal.
No mesmo dia, encontra sua mulher Luisa numa rua movimentada. Acompanhados de Rossella (Rossella Falk), a melhor amiga de sua esposa, eles visitam a construção de uma gigantesca nave que será usada como cenário no filme de Guido (aquela estrutura que aparecera na primeira cena do filme). Ele conversa com Rossella, uma espécie de médium, a respeito de seu futuro e de suas dúvidas, enquanto Luisa passeia pela construção, muito desanimada e pensativa.
À noite, Guido e Luisa discutem seriamente no quarto de hotel. Dormem em camas separadas e aparentam ser um casal em crise conjugal. As discussões nunca são iniciadas por Guido, que prefere manter seu relacionamento conjugal em estado de marasmo, enquanto Luisa questiona a baixa afetuosidade dele.
No dia seguinte, num café, Guido, Luisa e Rossella encontram Carla, o que acarreta outra séria discussão do casal. Luisa percebe, pela reação de Guido, que aquela mulher é sua amante. Enquanto Luisa faz um monólogo sobre o caso extraconjugal do marido, não se conformando com a infidelidade dele, Guido imagina as duas como amigas, convivendo pacificamente. Esta cena fantasiada pelo protagonista é seguida por outra – que pode também ser um sonho de Guido, não ficando claro no filme. Nesta cena, ele é recepcionado numa casa por praticamente todas as mulheres que aparecem no filme, além de outras que marcaram sua vida. Nessa casa (semelhante àquela do sonho de quando era criança) ele é uma espécie de polígamo, mimado por várias mulheres: Carla, Saraguina, Madeleine, Gloria, uma corista, uma exótica morena, a dama misteriosa do hotel, dentre outras que estão presentes no local. Luisa também está presente, sendo um misto de empregada doméstica e dona de casa. Inicialmente, todas lhe tratam com muito carinho, porém este sentimento vai se transformando em uma revolta contra sua figura. Numa cena antológica, Guido, de chapéu e sem camisa, defende-se delas com um chicote.
À noite, Guido está num cinema, assistindo aos testes de atores e atrizes para seu filme. Permanece mudo, enquanto o produtor Comendador faz várias perguntas sobre o elenco. Acompanhado pelo grupo de pessoas envolvidas no projeto, ele revê cenas de personagens baseados em suas vivências, como Luisa, Carla e Saraguina. O crítico Daumier, que durante grande parte do tempo acompanha Guido, dando sugestões e sendo um tanto pedante, deixa o diretor um pouco irritado com suas observações sobre o filme. Depois de ouvir as ressalvas do intelectual, ele imagina o crítico sendo enforcado.
Assistindo ao teste de elenco e analisando as falas das personagens, Luisa percebe que Guido estava criando um filme autobiográfico e que os dramas conjugais do casal estavam sendo expostos de forma clara no roteiro. Isto a deixa profundamente irritada. Assim, ela tem sua terceira séria discussão com o marido. Após a discussão com sua mulher, Guido volta para a sala de projeção e é avisado da chegada de sua atriz favorita para protagonizar o filme, aquela que ele imaginou em todas suas fantasias: Claudia. Ela entra no cinema, deslumbrante, em uma roupa de gala.
Após uma breve conversa, eles seguem de carro conversando. Ele a admira e declara sua admiração por ela, assim como ela diz gostar muito dele. Na cena, Guido parece um adolescente apaixonado. Claudia fica curiosa sobre o filme que irá atuar e Guido começa a contar o enredo que está em processo de desenvolvimento. O protagonista do filme de Guido é uma personagem com os mesmos dilemas dele. Guido conta as crises da personagem principal de seu filme, como: a incapacidade de mudar o rumo de sua vida.
Após o passeio de carro, eles chegam até uma rua deserta, parcialmente iluminada. Lá, a personagem de Claudia no filme de Guido toma forma. Vestida de branco, como já aparecera em outras cenas, ela surge numa janela de uma das casas da rua deserta. Pela primeira vez no filme, aparecerão na mesma cena duas Claudias: a real, conversando com Guido no carro e a fictícia, a personagem Claudia fruto da imaginação dele. Depois de conversarem dentro do veículo, eles caminhando por uma rua deserta. É neste ponto que Guido desabafa pela primeira vez e declara sua desistência e descrença com seu projeto de filme.Depois de alguns minutos, Marcello e Claudia são interrompidos por dois carros barulhentos e apressados, ocupados pela equipe de filmagem de Guido. Ele é avisado sobre o lançamento de seu filme que ocorrerá num grande evento internacional. Assim é levado, meio à contragosto, a entrar num dos carros, enquanto Claudia sai de cena discretamente.
A grande plataforma que será transformada em nave espacial é o local de lançamento do filme. Guido levado à força por seus amigos, pois pretende voltar para o carro, escondendo-se da multidão que está lá presente. Vários repórteres começam a fazer perguntas para Guido. Todos falam ao mesmo tempo, formando-se uma balbúrdia. Entretanto, ele não responde a nenhuma das perguntas e senta numa grande mesa, ao lado de seu produtor. Comendador começa a pressionar bastante Guido para que ele fale com a imprensa e não permaneça quieto. Porém, Guido, como uma criança envergonhada, decide se esconder embaixo da mesa, como se fosse o único recurso para fugir das perguntas. Engatinhando de forma patética, ele abaixa a cabeça e ouve-se o barulho de um tiro.
Na cena seguinte, ele está num carro, sendo confortado por Daumier, que apóia sua decisão de abandonar o projeto do filme. Eles travam um diálogo muito interessante, no qual o crítico define quais funções devem ser atribuídas a um intelectual.
Na cena que encerra o filme, Guido está dirigindo todas as personagens que apareceram no filme. Todos estão no cenário da espaçonave, dançando juntos de mãos dadas numa enorme roda. Guido orquestra o elenco como o diretor de um filme. Depois de alguns minutos, ele adere à roda, deixando de lado suas funções e se diverte com todos.

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