O olho do fotógrafo

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É do olhar que vem a motivação, em primeiro lugar, para que a fotografia exista. Tudo o que se segue são técnicas e acessórios empregados na realização de um desejo iniciado muito antes do “clic!”, muito antes ainda de a foto ir para o papel ou para o computador.

O desejo pode ser realizado pela imagem instantânea, o snapshot, algo como “eu preciso ter isso”  ou então “eu preciso mostrar isso”. Muitas vezes hoje é assim. Sacamos a câmera, o celular, do bolso, clicamos e mostramos mais tarde, ou logo em seguida, a imagem daquilo que há poucos instantes nos moveu, nos animou de algum modo. Logo mais esquecemos. Passou. Nunca mais vamos olhar para aquilo outra vez. Se sobreviver, a imagem vai ficar enterrada num cartão de memória, num HD, numa gaveta dentro de uma pasta virtual em um lugar inacessível ao olhar humano.

Ou, o desejo pode realizar-se pela imagem que move em sentido mais profundo, algo como “Deus!”. Uma fotografia de uma situação como essa está carregada de muito mais coisas que um simples “olha isso”. Ela não é um simples apontar para uma coisa ou uma situação. Ela já é um dizer algo sobre a coisa. Na verdade, um querer dizer. É o desejo, o querer, que o fotógrafo não vai exprimir em palavras, mas através da sua arte vai dar forma, sentido e realidade a ele. Fotografias como essas não se perdem nas gavetas. E quando mostramos uma fotografia dessas, mesmo que digamos “olha isso!”, na verdade estamos querendo dizer “me entende?”.

Compor uma fotografia, planejá-la, para muitos pode ser um ato intuitivo, natural. Outros podem simplesmente se deixar soterrar pelo desejo, acabando perdidos sem saber o que fazer, sem ter os meios de expressá-lo. Conhecer seu meio de expressão é bom para os dois. Para o que está perdido, é um guia para a realização. Para o que já foi atrás dela por seus próprios meios, é auto-conhecimento.

Há algumas semanas iniciei a tradução do best seller The Photographer’s Eye de Michael Freeman. O livro deve ser publicado pela Bookman/Grupo A no primeiro trimestre de 2012. É um livro exclusivamente sobre composição e design para fotografia. Um caso raro, já que a imensa maioria dos títulos são sobre questões técnicas relacionadas ao equipamento fotográfico. Poucos livros de fotografia falam tão pouco de câmeras, flashes, photoshops… Em O olho do fotógrafo, como deverá ser o título em português, fala-se de fotografia segundo o equipamento mais fundamental à disposição do fotógrafo: os olhos.

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Comentários

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2 Comentarios

  1. “E quando mostramos uma fotografia dessas, mesmo que digamos ‘olha isso!’, na verdade estamos querendo dizer ‘me entende?’.” Sensacional, Gustavo.
    Por isso que meu livro de cabeceira é “The Mind’s Eye”, uma compilação do mestre Bresson. Fiquei curiosa para ler este do Freeman também :)
  2. Tatiane Cousandier /
    Muito boas tuas observações. Lí este livro em espanhol, vale muito à pena a leitura mesmo. Abraço.

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