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Paulo Scott é escritor e mora no Rio de Janeiro desde 2008. É autor de Ainda orangotangos, Voláteis, A timidez do monstro, Senhor escuridão e Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros. Lançará ainda em 2011 o romance Habitante irreal pela editora Alfaguara. Fiz algumas perguntas pra ele.
Numa era de leituras dinâmicas e dispersivas, a poesia perde espaço?
Pelo contrário, acho que ganha. Penso que nessa pressa a estética e tudo que é capaz de instigar acaba se impondo sobre a funcionalidade massacrante do dia-a-dia. Evidentemente que não é qualquer poesia, qualquer pretensão poética, que terá essa relevância. A poesia continuará como a grande ambição de todo aquele que busque alguma interlocução com a arte, com a sublimação (nesse sentido, as religiões manipulam muito bem a lógica poética); do contrário, será o desespero diante da falta de sentido completo da vida, da existência.
Há ainda espaço para ser subversivo, sujo e maldito na literatura brasileira ou isso hoje já virou lugar-comum?
Sim. Sempre há espaço para as subversões. O contexto sobre o qual ela se coloca é que se torna cada vez menos óbvio, cada vez mais difícil de encontrar. O resto é clichê, é arremedo (coisas das quais nenhum de nós está livre). Imagino que a única subversão seja a que se cometa contra si mesmo, se ela será relevante e se estenderá, bem, daí já é outra história.
Existe literatura gaúcha? Ou existem só autores gaúchos?
Tenho dificuldade em aceitar tanto uma categoria quanto a outra. Os rótulos nunca funcionaram muito bem na minha cabeça. Na poesia, posso garantir, funcionam menos ainda. O nicho quando criado tende a servir de desculpa para se enaltecer o que não resistiria se confrontado com o que tem outra procedência (e não é só uma questão de linguagem). Existem elementos que, inegavelmente, influenciam pessoas de uma determinada localidade, mas isso não pode ser encarado como uma redução. Nunca me apresento como autor gaúcho; uso a língua portuguesa para escrever, e nisso está o máximo de circunscrição tolerável.
Um bom leitor deve começar pelos clássicos indiscutíveis ou ler o que mexe com a cabeça dele antes de tudo?
A maioria dos clássicos exige uma maturidade e uma disposição que a maioria dos leitores incipientes não têm. Deste sempre, minha curiosidade esteve voltada para os autores contemporâneos. Acho que se alguém me proibisse de ler os contemporâneos e forçasse a leitura dos clássicos, possivelmente, eu não seria o leitor voraz que acabei me tornando.
Por qual escritor(a) morto você nutre uma paixão platônica?
Sartre.
Como você separa sua criação poética do seu trabalho com a prosa ou tudo está interligado?
Sou um poeta. Escrevo e leio poesia todos os dias. Minha relação com a prosa vem de certo tributo, cruzada pessoal, que me propus para homenagear (e nessa homenagem buscar coerência), meu pai, meus tios, meu avô que, fundando para mim uma espécie de nova mitologia negra, mestiça, rural e urbana, foram e são ótimos contadores de histórias.
Atualmente, no meio literário nacional, quais autores valem a pena ser lido sem dúvida nenhuma?
Sem dúvida nenhuma? Dentre os contemporâneos vivos? Marçal Aquino, João Gilberto Noll, Luiz Rufatto, Milton Hatoum, Sergio Sant’Anna, Joca Terron, Cintia Moscovich, Nelson de Oliveira, Marcelo Mirisola, Daniel Pellizzari, Michel Laub, Daniel Galera, Bernardo Carvalho, Luiz Vilela, Santiago Nazarian, Marcelino Freire, Fernando Molica. Há tantos. Evidentemente que cada um desses autores possui um e outro livro que são melhores do que o resto da obra, coloquemos nesses termos.
Um livro seu já virou filme. Se você pudesse escolher um filme qualquer e transformá-lo num romance, qual seria?
Não me ocorre nenhum que me despertasse esse desejo.
Costumam dizer que um escritor deve ler muito mais do que escreve. Isto procede?
É o único conselho cem por cento procedente.
Viver para escrever ou escrever para não morrer?
Sem querer parecer um tolo romântico: escrever para não morrer.
Com qual escritor europeu já falecido você tomaria um café em Paris?
Céline, em qualquer parte do mundo.
Com qual escritor gaúcho já falecido você daria uma volta pela Andradas?
Luiz Sérgio Metz.
Qual a primeira coisa que você faz quando está sem saco para escrever?
Leio.

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