Porto Alegre: cidade sensível

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Talvez o maior mérito do artista seja chamar atenção para o que costuma passar despercebido. Através de sua percepção, o (aparentemente) invisível aparece. O que é ínfimo salta a nossos olhos.

Dentro dessa lógica, a 8ª Bienal do Mercosul convida artistas para intervirem na paisagem de Porto Alegre na mostra Cidade Não Vista. Assim, alguns optam por chamar atenção através de intervenções artísticas para lugares que pouco reparamos na cidade, enquanto outros ativam espaços aos quais não teríamos acesso normalmente e outros buscam alterar nossa percepção de lugares que estamos acostumados a freqüentar.

Elida Tessler, artista que desenvolve uma pesquisa relacionada à palavra, interfere na Garagem dos Livros, um espaço literário e sebo próximo à Usina do Gasômetro. A artista propõe o entrecruzamento entre o acervo do local e o IST ORBITA, texto de Donaldo Schüler, ao elaborar placas em acrílico com as identificações das estantes da Garagem dos Livros e também dos 101 nomes de autores, personagens e artistas mencionados no texto de Schüler. Além disso, Tessler criou uma enciclopédia de IST ORBITA de 138 volumes, em que cada um contém apenas uma folha com um poema de Donaldo Schüler e com todas as outras páginas em branco.

Garagem dos Livros. 2011. Foto: Fábio Del Re

No Viaduto Otávio Rocha, Marlon Azambuja encobre com fita vermelha as esculturas de Alfred Adloff que representam a luz e reacende as luminárias que as personagens femininas trazem na mão. Assim é possível dar visibilidade através do ato de encobrir.

Marlon de Azambuja, Potencial Escultórico. 2011. Fita adesiva sobre mobiliário urbano. Projeto.

Oswaldo Maciá, por sua vez, elabora uma escultura sonora que se infiltra na história da chaminé da Usina do Gasômetro, dando um novo sentido a um dos cartões postais de Porto Alegre. O trabalho de Maciá nos coloca no interior da chaminé, onde é possível escutar uma sinfonia em que a base é tocada com martelo e bigorna num dos ritmos mais antigos do flamenco, o martinete. Para proporcionar isso, cinco bigornas são tocadas e ouvidas em quatro canais de som instalados em diferentes alturas do espaço cilíndrico. Através dessa intervenção, a percepção do espaço é alterada pelo som, que ao dialogar com a imagem, produz um novo sentido.

Propondo um diálogo entre arquitetura e som, Paulo Vivacqua interfere no observatório astronômico da UFRGS, com uma instalação sonora que evoca a memória através de uma espécie de colagem de sons, em que referências sonoras atuais e da época da inauguração do local, em 1906, se rearticulam.

Ainda lidando com questões sonoras, Pedro Palhares amplia nossa percepção da cidade, amplificando seus ruídos a partir de uma estrutura de tubos de PVC colocados próximos ao Aeromóvel de Porto Alegre. Os visitantes podem sentar e ouvir o som das proximidades numa estrutura individual que envolve as suas orelhas. Dessa forma, Palhares constrói paisagens sonoras, revelando a cidade através do som.

Pedro Palhares, Paisagismo sonoro. 2011. Site-specific. Projeto.

Na peça sonora Hinos de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, reproduzidos ao mesmo tempo e continuamente (2007), Santiago Sierra converte em um concerto cacofônico os hinos desses países, todos pertencentes ao Mercosul. Essa obra, já apresentada em Montevidéu, é apresentada em Porto Alegre no Jardim do Palácio Piratini, colocando em conflito idéias de unidade e cooperação e valorizando as diferenças e a heterogeneidade.

Uma das obras mais bem humoradas dessa Bienal, a intervenção de Tatzu Nishi consiste em colocar andaimes e um cômodo doméstico no alto da Prefeitura Velha, jogando com as noções de público e privado e causando grande estranhamento ao transformar o terceiro andar da fachada do prédio, onde há um relógio e um dos símbolos da República Federativa do Brasil, em interior de um quarto.

Tatzu Nishi, The Merlion Hotel. 2011. Singapore Biennale. Foto: Yusuke Hattori

O trabalho de Victor Cesar consiste em criar uma conexão oral entre os acessos da escadaria entre as Ruas Duque de Caxias e Fernando Moraes, por meio de interfones que transpõem os acidentes da cidade .

Valeska Soares trabalha com a dupla de músicos O Grivo na construção de uma instalação sonora na Casa de Cultura Mário Quintana chamada “(Shushhhhh…..) prelúdio”. Tratam-se de 42 caixas acústicas instaladas em duas áreas diferentes, pelas quais ouvimos “shushhhhhh”, como se alguém estivesse pedindo silêncio. A instalação envolve o espectador em um estranhamento sensorial e surpreende aqueles que transitam desavisados pelo espaço.

Mais informações sobre as obras podem ser obtidas pelo site da bienal.

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Comentários

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Um comentário

  1. Muito interessante o artigo com as ilustrações. Porto Alegre, neste período que ocorre a Bienal, torna-se uma cidade cosmopolita, mais bonita e charmosa. Arte sempre ajuda a desenvolver a sensbilidade das pessoas, nos tornamos mais civilizados em contato com ela.

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