A psicologia cultural da moda hoje

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Semana que vem, dia 30, termina o Pan, e ninguém deixou de comentar que os uniformes que as equipes brasileiras usariam na Vila do Pan é assinado pelo estilista gaúcho Oskar Metsavaht, da Osklen.

Os modelos não perdem a marca que a Osklen sempre colocou em suas peças, com uma modelagem bem recortada e amoldada, e com a escolha de tecidos inteligentes para ajudar o desempenho dos atletas. Além disso, o visual que os atletas exibiram na cerimônia de abertura do evento tinham a identidade visual que a marca costuma inserir em suas vitrines: um visual limpo, casual e bem brasileiro – na minha referência pessoal como consumidora, a Osklen foi a primeira marca que me mostrou pela primeira vez o uso de algodão puro, cru, trabalhado com trabalhos manuais do país; ao ver a peça, tão praiana, tão intimista, me senti inclusa num nicho cultural que eu, até então, desconhecia.

E é por tratar-se de nichos culturais que vamos hoje falar de moda.

Sempre faço questão de abordar moda como identidade e cultura, bem como de expressão singular. Hoje trataremos de forma diferenciada, mas sem se distanciar tanto assim. Só vamos modificar de cultura de moda para a moda como elemento cultural.

Não é difícil se notar que a moda está individualista. Aliás, esses dias ouvi a coisa mais interessante que eu poderia ouvir no que se trata de visual num programa que aborda moda, onde a consultora vestiu uma moça com muitas cores, color blocking, para provar que a menina poderia usar cores no seu dia a dia; Mas alertou: tendências tão destacadas como essa têm o ’dom’ de afastar o sexo oposto. Por mais desconsiderável que seja a consultora, de fato existe essa tendência social, por assim dizer. Mas as tendências são seguidas.

E cada vez parece mais incisivo que as pessoas estão carentes, em busca de relacionamentos…

O visual Otaku feminino normalmente vem com uma micro saia, e é usado por idades bem variadas.

Não, não vou culpar as tendências ou a moda quanto aos dramas pessoais que acabam acontecendo incisivamente nos tempos atuais. É uma simples ironia que bem ilustra o que vem a seguir.

Eis que Arnaldo Jabor desenvolve um texto sobre os conflitos das pessoas e de seus conceitos sociais, bem ilustrado com a sequencia de atos que acabam sendo rotineiros e frustrantes.

Arnaldo Jabor

Estamos com fome de amor* O que temos visto por ai ??? Baladas recheadas de g…arotas lindas, com roupascada vez mais micros e transparentes. Com suas danças e poses em closes ginecológicos, cada vez mais siliconadas, corpos esculpidos por cirurgias plasticas, como se fossem ao supermercado e pedissem o corte como se quer mas… chegam sozinhas e saem sozinhas… Empresários, advogados, engenheiros, analistas, e outros mais que estudaram, estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos… Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos “personal dancer”, incrível. E não é só sexo não! Se fosse, era resolvido fácil, alguém tem dúvida? Sexo se encontra nos classificados, nas esquinas, em qualquer lugar, mas apenas sexo! Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho, sem necessariamente, ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico na cama … sexo de academia . . . Fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão “apenas” dormir abraçadinhos, sem se preocuparem com as posições cabalisticas… Sabe essas coisas simples, que perdemos nessa marcha de uma evolução cega. Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção… Tornamo-nos máquinas, e agora estamos desesperados por não saber como voltar a “sentir”, só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós… Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada nos sites de relacionamentos “ORKUT”, “PAR-PERFEITO” e tantos outros, veja o número de comunidades como: “Quero um amor pra vida toda!”, “Eu sou pra casar!” até a desesperançada “Nasci pra viver sozinho!” Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários, em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis, se olharmos as fotos de antigamente, pode ter certeza de que não são as mesmas pessoas, mulheres lindas se plastificando, se mutilando em nome da tal “beleza”… Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento, e percebemos a cada dia mulheres e homens com cara de bonecas, sem rugas, sorriso preso e cada vez mais sozinhos… Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário… Pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso ter a coragem de encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa… Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia isso é julgado como feio, démodê, brega, familias preconceituosas… Alô gente!!! Felicidade, amor, todas essas emoções fazem-nos parecer ridículos, abobalhados… Mas e daí? Seja ridículo, mas seja feliz e não seja frustrado… “Pague mico”, saia gritando e falando o que sente, demonstre amor… Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais… Perceba aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, ou talvez a pessoa que nada tem a ver com o que imaginou mas que pode ser a mulher da sua vida… E, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois… Quem disse que ser adulto é ser ranzinza ? Um ditado tibetano diz: “Se um problema é grande demais, não pense nele… E, se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele?” Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo, assistir desenho animado, rir de bobagens e ou ser um profissional de sucesso, que adora rir de si mesmo por ser estabanado… O que realmente, não dá é para continuarmos achando que viver é out… ou in… Que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo, que temos que querer a nossa mulher 24 horas, maquiada, e que ela tenha que ter o corpo das frutas tão em moda, na TV, e também na playboy e nos banheiros, eu duvido que nós homens queiramos uma mulher assim para viver ao nosso lado, para ser a mãe dos nossos filhos, gostamos sim de olhar, e imaginar a gostosa, mas é só isso, as mulheres inteligentes entendem e compreendem isso. Queira do seu lado a mulher inteligente: “Vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois, ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida”… Porque ter medo de dizer isso, porque ter medo de dizer: “amo você”, “fica comigo”, então não se importe com a opinião dos outros, seja feliz! Antes ser idiota para as pessoas que infeliz para si mesmo!

Arnaldo Jabor 

Note que a primeira coisa que Jabor expõe é a indumentária usada por mulheres, e o posicionamento que esta acaba atribuindo. É horrível pensar, mas essa postura de ‘vender-se como um pedaço de carne’ não é uma tendência só para mulheres, mas está atingindo adolescentes e, inclusive, crianças. Os estilos joviais, hoje, são muito sensuais para a idade das meninas que tendem a seguir tal tendência. Aliás, já existem meias arrastões para crianças a partir de 8 anos!

Não se distanciando muito da temática, você vai se deparar com essa letra do Emicida. Se você é daqueles que acha o RAP uma coisa pessimista, que só evidencia a falha, o ódio e a revolta, é surpreendente a alma de análise que esse rapper coloca em suas letras. Não suficiente, o clipe foi feito acompanhando o dia a dia de uma garota de programa durante 4 meses. Assim, o clipe passa a ser um teaser de um grande filme que a equipe, comandada pelo próprio Emicida, pode compor e datar as dificuldades por trás do glamour que as tantas Brunas Surfistinhas criaram na mídia. Inclusive, na letra, o Emicida usa de sua liberdade poética para chegar no linguajar de sua protagonista.

Novamente nos deparamos com as máscaras usadas no cotidiano.

As maquiagem forte esconde os hematoma na alma.

Fumando calma ela observa os faróis que vem e vão, viver em vão.

Os que vem e não te tem são se necessário homem de bem fujão.

Que não agüentou ser solitário.

Mema grana que compra sexo, mata o amor.

Traz a felicidade, também chama o rancor.

As madruga que testemunho vermelho sangue na unha.

Emicida

E se você questiona o valor do RAP hoje na sociedade, bem como a importância do Emicida no mundo da moda, saiba que o rapper assinou um modelo da Nike que já está nas ruas, e que você pode estar usando ou querendo usar sem nem saber quem assinou o visual street da peça.

Esta linha mais street da Nike é assinada pelo Emicida.

Mesmo em licença poética, mesmo a estética sendo meramente ilustrativa, você pode ver como muitas posturas que temos no nosso cotidiano podem colaborar com a nossa persona: ou omitindo desejos que vetamos, ou escondendo o que caracterizamos como falhas, e que viram falhas sempre que as caracterizamos assim.

Ao ler o Jabor e ver uma entrevista do Emicida, me veio uma música na cabeça. “Unpretty“, , do TLC. O L, do TLC, representa Lisa Left Eye Lopes, morta em 2002 num acidente de carro. Lisa era coloquialmente chamada de Left Eye, que foi um apelido dado por um ex-namorado, que constatou que o olho esquerdo da menina era maior que o direito. E é com ela deixo vocês. Com ela e com sua suposta feiura.

 

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Um comentário

  1. Ótimo texto.
    Conheço pouco do assunto, mas acho que a indústria da moda está seguindo a onda da comercialização da atitude. Isto é, até meados da década de 1960, a cultura de massa vendia um só “molde” de valores e estética (o american way of life dos anos 50). Com as revoluções dos anos 60, as pessoas ficaram mais ansiosas em expressarem sua unicidade e assim a indústria para sobreviver teve que pensar em vários estilos e tendência. Sempre com uma predominante, que atualmente pelas lojas de departamento é a moda inverno cebola (camadas de blusas, blusinhas, blusoes e casacos para compor o look) e a verão carne crua e nua.

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