A sutileza por dentro da atitude cênica

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A associação é quase imediata: a primeira imagem que passa pela cabeça de muitas pessoas quando pronunciam a palavra teatro é a imagem daquele ator virtuoso, em uma atitude intensa no palco, corpo vibrante ocupando todo o espaço cênico. E sim, teatro é muito isso, exige aquela atitude extra-cotidiana já observada nesse post anterior, mas exige também que o ator consiga passar uma sutileza por dentro desse virtuosismo e dessa grandiosidade, independente de qual gênero teatral se trata.

Na tragédia grega, por exemplo, a linguagem é macro, o encenador necessita jogar com o público, com o coro e com seus colegas em cena, o corpo é ampliado, a voz deve ser projetada até o limite, mas o ator precisa captar a verdade por detrás dessa projeção. Não é particularmente uma tarefa fácil, não sendo raro muitas vezes observar atores (muitas vezes experientes) em uma atitude declamatória em relação ao texto, com projeção impecável mas falta de veracidade em suas falas e intenções.

 No melodrama o corpo também é ampliado, mas o exagero e o “over-acting”, já abordados anteriormente aqui são bem mais intensos que na tragédia grega. É fundamental que o ator esteja entregue e emocionado de forma verossímil em relação ao texto, caso contrário ocorre o “pastelão”, pendendo para a comicidade não intencional mas que é a consequência direta de uma atitude melodramática não-verdadeira.

O teatro realista, mais precisamente a linguagem “tchekhoviana” é a que mais poderia se aproximar de uma interpretação cotidiana, com o subtexto e as entrelinhas de uma obra desempenhando um papel preponderante na construção de uma narrativa. É também o estilo cênico que permite muitas vezes um olhar mais vago por parte do encenador, não necessariamente jogando com o espectador o tempo todo, visto que muitas temáticas nesse estilo giram em torno de temas como solidão, nostalgia e descrença.

 Nas obras de Nelson Rodrigues o despudor é a marca registrada. Entretanto é tarefa muitas vezes árdua conseguir imprimir emotividade e sutileza dentro desse estereótipo, pois os personagens rodrigueanos nunca são exatamente aquilo que representam, há sempre um elemento de mistério por detrás de suas construções. O encenador precisa captar esses elementos, organizar sua codificação interna e transformá-lo em personagem vivo, cheio de latências e particularidades.

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