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O grande ônus pago hoje é o da vacuidade estilística do pensar. Pelo fato de quase tudo virar lixo reciclável num estalar de dedos a concepção é antes forma renovável que estilo conciso. Desde um caso apaixonado até uma sublimação artística, tudo engloba o ato de descartar. Apago o que vivi atrás de um novo placebo sensorial e nada basta por si só. Sempre há o mais, mesmo que este seja tão fútil e fugaz como o antecedente. Nada basta para o oco das impressões. Compro outro sabonete quando o anterior vira fluido e se esvai, trepo de novo quando o gozo não é tão triunfante quanto aquele fixado pelas magazines ditas femininas (mais machistas que qualquer cafajeste do século passado). Por isso é tão receada a escrita flagelada de estímulo. Antes do sentimento propriamente dito queremos o não dito do tato evaporado em difusões. A performance abateu a escória do afeto. Replicantes programam o sentir antes de temer ou desmentir a futilidade do instante. O mundo nunca antes foi tão orientado para o agora ou nunca. Um livro chateia, que tal um blog? A filosofia não traz o alívio imediato, vamos tirá-la das escolas. Que tal um aforismo de para-choque de caminhão? Qualquer ser que se preze deveria ao menos pensar um pouco mais. A sincronicidade do universo não está aí à toa. Ela traz o que mais precisamos hoje: denotar antes de notar, exprimir antes de fingir. Se tudo é tão belo e exato assim, por que não recuamos de vez até a pré-história da elocução onde a fala articulava mais do que tudo? Somos servos das imagens cada vez mais latentes e inexpressivas. Só a literatura, só a literatura, só a literatura, assim, aliterada, pode temperar com acedências e devaneio esse planeta hipócrita onde o utilitarismo acachapou a inutilidade do sentir e sua inseparável fraqueza construtora.
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