Devaneios depois de ler Adília

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Primeiro amor (Adília Lopes)

Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado os Pestíferos de Java
resolvi assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele fina
devia ter uma letra muito melhor que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita

 

A grande sacada da arte é levar a gente adiante do visível. O mundo é muito mais do que isso aqui que estou vendo agora? Não sei, mas pelo menos podemos fingir que sim. Por exemplo, uma alma romântica – não no sentido tolo mas no viés abstrato mesmo – sente-se constantemente destroncada da banalidade dos atos corriqueiros e precisa de mais e mais enleios. Esse mais é de difícil aferição e não se explicita sem imprecisão, podendo metamorfosear-se de infindáveis formas, sendo a mais fértil, pra mim pelo menos, em objeto artístico.

Adília Lopes

Como tudo é tão sutil, volúvel e provisório, a arte dá a impressão de que podemos controlar algumas coisas inatingíveis para os reles mortais. A emoção suscitada pela agilidade artística remete à absorção de algo que não conseguimos tocar de fato, como se conquistássemos o intangível e isso fosse extremamente prazeroso. Numa espécie de bosque imagético acolhemos o mistério dos sentidos para abarrotar nossos vazios intermináveis. Esses “buracos” estão constantemente ligados à racionalidade. Não sei se estou falando besteira aqui, mas o irreal é um oásis dentro de um deserto de símbolos que não nos suavizam satisfatoriamente.

Um caso emblemático para tentar compreender a arte é notar nossa perene ressignificação do perdido – ou passado, como você achar melhor. Costumamos postular efeitos e aferições para reorganizar as páginas viradas do calendário e forjar uma acepção para o que já virou fumaça. O acontecido é a nossa grande obra de ficção em eterna confecção. Tudo não passa de impressões que criamos para, de repente, tornar nossas vidinhas um pouco mais próximas de o que aqui cunho de “cinematográfico”.

Quando pensamos em escrever ficção sobre algo ou alguém sem querer acabamos inventando literatura com outros utensílios inconscientes e não necessariamente com nosso objeto de estudo. Nunca sabemos sobre o que de fato estamos escrevendo. Na vida real não é tão diferente assim. Quando alguém se diz apaixonado por algo (ou alguém) está apenas arrebatado pela história criada ao redor do fato e não propriamente pelo evento ou pessoa em si.  Nunca temos consciência sobre o que verdadeiramente ansiamos. A irrealidade entra em nossa vida com discrição e toma conta da gente sem avisar. A vida é um mistério que nos invade antes mesmo de abraçarmos ele. Não há outra saída. Ou aceitamos nossa vulnerabilidade ou ela nos pega violentamente pela mão.

 

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