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Que Porto Alegre é uma cidade provinciana não é novidade para ninguém. Nossa voltagem estética está vinculada ao conservadorismo e a ranços com outros estados nacionais. Não nos sentimos brasileiros mas inseridos numa pseudonacionalidade, miscigenados com uruguaios e argentinos. Cantarolamos o hino do RS nos estádios de futebol em detrimento do hino nacional – alguns de nossos melhores jogadores inclusive se negam a vestir a camiseta da seleção brasileira. Devido à nossa configuração geográfica, refluímos traços do folclore cisplatino bem mais do que assimilamos potencialidades tupiniquins. Sempre estamos um tanto escanteados do resto do país e, grosseiramente, gabamo-nos disso.
POA é uma capital que traz certa animosidade. Temos ares de município interiorano e um lifestyle substancialmente pacato. É agradável viver na capital gaúcha, mas também muito limitante. De certa forma, tornamo-nos um tanto acomodados. Vamos para São Paulo e ficamos arrebatados, passamos uma semana no Rio e sonhamos com um apartamento em Ipanema. Nossa cidade açoriana não tem nada de instigante e coexistimos com um marasmo reconfortante e anódino.
O estereótipo do gaúcho não condiz com um habitante porto-alegrense. O sul-rio-grandense legendário é o da fronteira. O monumento-símbolo da nossa cidade é o de um sujeito nada urbanizado: uma criatura corpulenta, rude, chamada de Laçador. Quem nasceu em Porto Alegre não tem muita identidade na realidade. Somos afrodescendentes, bisnetos de colonos ou aportuguesados. No caso da cultura afro, negamos sua existência quase inteiramente. Apesar de rica e atuante no estado, fazemos de conta que os negros não fazem parte da nossa história – veja o caso da Revolução Farroupilha, nosso maior orgulho cultural, em cujo desfecho operou-se uma das maiores infâmias escravocratas já vistas no Brasil. Cultura dos imigrantes? Só em algumas festividades locais regadas à vinho ou cerveja. Fomos fundados por portugueses? Sobraram algumas construções típicas, além de restaurantes. De que é feito nosso sangue afinal? Somos assim tão conectados como bocejam as más línguas? Creio que não.
No Rio temos a cultura dos morros, que a partir do samba, adquiriu um protagonismo local que inclusive fez dele símbolo internacional da cidade. Na Bahia, as origens africanas foram elevadas à última potência, influenciando todo um ambiente cultural riquíssimo em diversidade. Em São Paulo, o multiculturalismo está presente pela concentração das mais diversas etnias de cada canto do planeta e essa Torre de Babel insufla a criação artística.
O porto-alegrense se diz culto, mas antes de bem letrado é presunçoso. Não é mais instruído que um cara de Salvador, de Recife ou do Rio, é apenas mais tradicional, arraigado à uma cultura estancada há anos. Muita gente confunde tradição com cultura. Ambas podem ser conjuradas, mas são conceitos díspares. Um povo pode estimar tanto suas raízes que acaba ficando cego quanto a outras manifestações culturais – veja o exemplo do movimento tradicionalista gaúcho, extremamente reacionário e sem nenhuma projeção nacional. Para piorar a situação, nossos escritores mais engenhosos, nossos cineastas mais inventivos, nossos artistas plásticos mais provocativos e nossos atores mais carismáticos fogem daqui quando podem.
Só agora, quando vamos receber alguns joguinhos da Copa, decidiram transformar Porto Alegre em algo menos arcaico: um metrô que corta a cidade, um cais do porto reformulado, casas de cultura com fachadas repintadas, dentre outras maquiagens que nos farão sentir mais evoluídos. Bem, pelo menos temos uma bienal bacana de vez em quando, uma festival de teatro muito bom e dois eventos literários de alto calibre. Fora isso? Não muita coisa.
Mas é sufocante morar em Sampa, no Rio é muito quente e as capitais nordestinas ficam muito longe… ah, vamos ficar por aqui mesmo, quem sabe, daqui um tempo, viraremos uma minibuenosaires.
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Elaise Lima.
elaiselima.blogspot.com