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Acho que o que mais gosto em escrever é o mesmo que me apaixona na pintura: ser levado pelo processo, surpreender-se em chegar aonde não se esperava. No caso do texto que estou escrevendo agora, havia feito uns esquemas – coisa que nunca faço – para melhor me situar no que pretendia falar: as diferentes tendências da pintura contemporânea. Estava pesquisando no livro Painting Today, de Tony Godfrey pela Phaidon, e a partir daí começaram a surgir mil coisas que desejava tratar também.
Kosuth disse, lá nos anos 70, quando o conceitualismo estava reinando, que a pintura, como o latim, era uma linguagem (language em inglês serviria também para língua) morta. Acho que já falei mais de uma vez nessa coluna sobre o fato de terem declarado a morte da pintura. Sigo me repetindo, pois sinto que afirmar e reafirmar a vivacidade dessa linguagem nunca é demais. E percebo, sobretudo, a pintura como um assunto inesgotável para se falar, ainda que como muitos pintores, acredite que o discurso, muitas vezes seja dispensável e a experiência (sensível) da pintura sempre prevaleça. Sobre isso, li que certa vez um crítico visitou o atelier de De Kooning , ficou por ali quinze minutos e escreveu algo que, segundo o artista, exigia seis horas para ler! A escrita ajuda a elucidar uma pintura, mas nunca dá conta de todo seu mistério.
Voltando à questão da permanência da pintura, uma coisa que percebo é que para manter-se viva a pintura precisa se reinventar. Não falo em vanguardas, como no modernismo, mas falo sobre poder acrescentar algo novo ao campo artístico, mesmo sem romper com o passado. Na verdade o que é mais comum atualmente é dialogar com o passsado, revisitar a história da arte, fazer pintura sobre a pintura e sobre a história da arte. Gerhard Richter faz referência a Duchamp com o seu nu descendo a escada. Adriana Varejão homenageia Fontana, em uma pintura que se tornou a obra mais cara vendida por um artista brasileiro. Georg Baselitz refaz suas próprias pinturas de períodos anteriores com um despojamento totalmente jovem.
Porém, para se renovar a pintura não parte apenas de referenciais propriamente artísticos. As transformações do mundo refletem na sua superfície. O espaço, a teconologia e a sociedade viram temas. Franz Ackerman desconstrói o espaço na pintura, transformando-o num caos de pulsações cromáticas, para depois inseri-lo no espaço real, construindo instalações a partir da pintura (o que remete também à tendência da pintura expandida, aquela que se transforma em instalação, como em Katharina Grosse). David Reed, Peter Halley e Ingrid Calame fazem a pintura parecer ter saído de uma tela de computador e provocam-nos sobre o sentido de se fazer pintura num contexto tão computadorizado, além de questionar a gestualidade muitas vezes associada ao abstracionismo. Elizabeth Peyton retrata os ídolos da contemporaneidade e John Currin revela o que há de ridículo na alta sociedade.
Inserida nessa pluralidade da pintura contemporânea está o foto-realismo. Sempre fiquei intrigada sobre o sentido de se fazer pinturas hiper-realistas quando se tem fotografia. Há pinturas que são idênticas à fotografia de onde partiram. Então, será que a única motivação delas é nos impressionar pela capacidade técnica? Não, acho, que essa não seria a única , elas estivessem rindo de mim, afirmando a permanência da pintura mesmo com o advento da fotografia. Parecem estar aí para afirmar que a pintura, após a fotografia, desenvolveu-se até levar a lingauagem da pintura ao extremo, eliminando a representação para ser ela mesma, mas agora permite-se ser pintura, mesmo “simulando” a fotografia. Ela apropria-se dela, assume sua proximidade, mas ainda assim resguarda suas características de pintura. Então percebo que há sentido sim em fazer uma pintura foto-realista. Há algo no processo da pintura que é totalmente diferente da fotografia e que refletirá em seu resultado, mesmo que tente disfarçá-lo. E é nessa sutil diferença que aparece na superfície que está a magia. Quando vemos uma pintura, por mais semelhante que seja à fotografia, ao saber que se trata de uma pintura, imediatamente (mesmo que nem sempre tomemos consciência) nos vem a presença física humana, a idéia da mão do homem. E por mais que saibamos que nem sempre as artes visuais envolvam manualidade, na pintura isso se impõe como questão e modifica nossa experiência diante dela.
Esse aspecto manual da pintura não deve ser confundido com artesania ou técnica simplesmente. Há algo mais nisso, de que Jonathan Lasker fala e com o qual me identifico profundamente, sendo minha grande motivação no fazer pictórico e o que me apaixona ao falar a respeito disso. Ao falar sobre suas pinturas, Lasker diz:
“Um dos meus objetivos ao fazer essas pinturas é valorizar a posição da mão humana e, logo, a integridade da identidade humana. A pintura comporta um registro físico para expressões da mão humana e da psique. Em nenhuma outra mídia a criação é mais permanentemente e intimamente direcionada pelos movimentos do corpo humano. Em nenhum outro lugar o humano é mais dotado de um efeito direto e imediato sobre a imagem de seu mundo. Somos todos, no presente, mais divididos, menos capacitados e certamente muito menos conectados aos efeitos de nosso mundo do que deveríamos ser. É por esse motivo que eu sou profundamente envolvido com as texturas de um meio capaz de unioversalizar tanta intimidade” *
Penso que a pintura nos faz retornar a uma condição do ser humano muitas vezes deixada para trás, a de instinto e intuição, tão preciosa e parte da nossa natureza. Numa sociedade tão mecanizada, em que o toque se dá só ao pressionar botões, teclas ou em tablets, a pintura nos lembra de nossa capacidade táctil e permite-nos maior contato (e por que não dizer comunhão?) com o mundo. Experenciar a pintura é também desvendar o mundo. E enquanto não o desvendarmos por completo a pintura seguirá.
* Fiz uma livre tradução do seguinte trecho :“One of my intents in making these paintings is to support the position of the human hand, and thus the integrity of human identity. (..) Paint bears physical record to the expressions of the human hand and psyche. In no other art medium is creation more permanently and intimately bound to the movements of the human body. Nowhere is the human more empowered to have a direct and immediate effect on the image of his world. We are all, at present, more divided, less empowered, and certainly far less connected to the effects of our world than we should be. It is for this reason that I´m deeply involved with the textures of a medium capable of universalizing so much intimacy”
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Uma vez que o contato com o físico para criar, escrever, gerar formas e objetos não é mais treinado, outras habilidades do cérebro que são relacionados e articuladas para possibilitar estas capacidades que parecem mais simples, também não são desenvolvidas.