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Para falar sobre a obra de Walt Whitman e principalmente da sua respectiva tradução para a língua portuguesa, conversei com um especialista nesse assunto. Gentil Saraiva Jr. bateu um papo comigo a respeito desse mestre absoluto das letras. Ele mantém os sites Poesia de Whitman e All About Walt Whitman.
Quando a poesia de Whitman entrou de fato na sua vida?
No final da década de 80, quando eu estava fazendo graduação em Letras (UFRGS). Pela minha memória, em 1988, ou o mais tardar em 1999. Foi algo rápido, decisivo. Meu amigo Lawrence Flores Pereira foi quem me apresentou Folhas de Relva. Após ler alguns poemas, Whitman me capturou. O poeta com frequência dialoga com o leitor. A impressão que tive é que ele estava falando comigo de fato, que estava comigo, como ele diz.
Esse desejo de traduzir a obra dele veio da onde?
Na época, eu já estava iniciando meus exercícios em tradução, orientado pelo Lawrence. Conforme meu interesse em Folhas de Relva aumentou, comecei a pensar em traduzi-lo. Foi aí que conheci a coletânea de poemas traduzida por Geir Campos, intitulada Folhas das Folhas de Relva. Embora seja um marco na publicação de Whitman no Brasil, eu detestei o trabalho do Geir Campos, por redistribuir os versos whitmanianos em trechos menores e deixar poemas inconclusos (ele mesmo explica isso em seu posfácio).
E foi por ter detestado o trabalho dele que decidi traduzir Folhas de Relva, para manter a integridade da obra. Até porque o tradutor não tem que facilitar a vida do leitor, nem querer melhorar ou piorar o original; o leitor precisa ter seu espaço de meditação sobre o que leu, em vez de receber porções mastigadas de textos.
Bem ou mal, foi Geir Campos o responsável pelo impulso inicial desta trajetória de mais de 20 anos traduzindo Whitman. Ele tem seu mérito, mesmo que comigo tenha funcionado às avessas.
Ao traduzir um verso, qual sua primeira inquietação?
Captar todas as possibilidades semânticas, rítmicas e fônicas dele, o máximo possível; todas as variáveis, para poder ter maior liberdade de movimento na recriação do mesmo.
A tradução de um poema está fadada a ser um novo poema?
Não. No máximo, uma co-criação com o original. Ou uma re-criação dele. Se sair um novo poema, aí já é interpretação, pois na tradução, pelo menos na minha ideia de tradução, é necessário transpor o sentido do original, e o máximo possível de sua forma, respeitando as característica da língua de chegada.
O que a tradução pode dar é liberdade e independência em relação ao original, se não, ela seria apenas uma nota de rodapé dela. Eu trabalho para que o leitor não precise buscar o original para comparar, para que o espírito dele esteja encarnado na nova língua, com um corpo o mais parecido possível com o do anterior.
Muitos tradutores leigos são obcecados pela busca ardilosa por algum sentido impresso num poema a ser revelado, algo que não seja estritamente linguístico, quiçá uma verdade maior. Isso é pura petulância ou há algo implícito nesse trincado mundo dos versos que, através da tradução, revela-se, mesmo que raquiticamente?
Não sei se seria petulância, mas também não acho isso algo a ser buscado. Eu parto do princípio de que uma tradução não é explicação nem interpretação do original. Para mim, o que está obscuro no original deve permanecer assim, e o que está claro, também. Não é tarefa do tradutor guiar o leitor ao que está oculto no texto. A interpretação cabe ao leitor, é problema dele. Mesmo que eu descubra algo oculto no texto, na tradução isso não vai aparecer. Talvez em nota de rodapé, ou no final do livro ou capítulo, mas não no texto, que deve manter oculto na língua de chegada o que está oculto na língua de partida.
Esse “vigor do discurso” tão latente em Whitman está presente (ou nem está tão de fato) ainda de forma expressiva no repertório poético dos escritores e poetas atuais?
Sinceramente, não vejo isso nos autores atuais. Pelo menos não em língua portuguesa. E não leio os poetas atuais em outras línguas. Faz algum tempo que tenho uma convivência restrita com as obras de poucos poetas. Como dizia Ezra Pound, com o passar do tempo, vamos restringindo as obras que relemos a um grupo pequeno. Desta forma, minha crítica nesse sentido também é de curto alcance.
No entanto, vejo uma diferença fundamental entre Whitman, e outros como ele, tipo Maiakóvski, Garcia Lorca, Fernando Pessoa, Pablo Neruda, que representam nações, e os poetas e escritores atuais em língua portuguesa. Não creio que exista mais essa ideologia de um escritor representar uma nação (ou pelo menos de um poeta fazer isso). Mas ressalto que meu horizonte de leitura é muito restrito, e leio pouco dos poetas e escritores atuais, mesmo em nossa língua. Seria injusto afirmar isso de maneira ampla. Eu sequer poderia afirmar isso com relação a Porto Alegre ou o Rio Grande do Sul, imagina o Brasil!
Em quais poetas e escritores o arcabouço estético de Whitman se faz mais presente? Citando apenas alguns, de vários que equacionaram todo esse potencial linguístico whitmaniano.
Reconhecidamente, os poetas do início do século XX que mais repercutiram a estética de Whitman foram Fernando Pessoa (principalmente Álvaro de Campos), T. S. Eliot, Ezra Pound, Pablo Neruda e García Lorca (estes são os que me lembro no momento, dentre os que conheço).
Whitman incorporou e canalizou o espírito de seu tempo em estrofes. Em qual poeta brasileiro você observa essa característica de transcrever e correlacionar um campo social numa elisão com a arte da escrita?
Conforme escrevi na minha tese, o escritor/poeta brasileiro que mais se assemelha a Whitman nesse espírito é Oswald de Andrade. Tanto pela capacidade de representar o povo brasileiro em sua obra de forma ampla, quanto pela multiplicidade de talento.
Whitman, além de poeta, era jornalista e escreveu um romance (Franklin Evans) e vários contos, além de estudos sobre os Estados Unidos, como Origens da Tentativa de Secessão.
O quanto o título de poeta-símbolo de uma nação é pernicioso para qualquer poeta e sua respectiva obra?
Na medida em que, ao ser transformado, ou elevado a essa condição, por gerações posteriores, isso traga ao poeta e sua obra uma interpretação equivocada ou oposta à intenção do autor, e/ou também discriminação ou preconceito. De qualquer forma, o tempo vai depurando isso e quem resistir a todas essas intempéries, com certeza vai ter um lugar garantido no rol das grandes figuras da humanidade, independente de nacionalidade ou posto. Haja vista a reputação de Dante, Shakespeare, Fernando Pessoa, Maiakóvski, García Lorca, e outros, que só tende a crescer com o tempo.
Um poeta do tamanho de Whitman entusiasmou a criação artística em infindáveis áreas. Em quais artistas, dentre tantos, você discerne uma estreita ligação com o legado poético polivalente de Walt?
Fora os citados acima, há ainda Isadora Duncan, que adotou Whitman como seu pai espiritual, os artistas da geração Beatnik, feministas do século XIX e XX foram admiradoras de Whitman, Bram Stoker (autor de Drácula), há ainda músicos, como Joan Manoel Serrat e Patxi Andión.
Certamente há muitos outros que não conheço, visto que a obra de Whitman foi traduzida ainda no século XIX para alemão e francês, e no início do século XX para italiano e espanhol, além das várias publicações feitas na Inglaterra.
Não cito a pintura, por desconhecer quase por completo a influência de Whitman nessa área; sei de um pintor norte-americano, Thomas Eakins, que fez obras com inspiração whitmaniana (ele Noite Estreladatambém), e o quadro Noite Estrelada, de Van Gogh, que pode ter sido influenciado da mesma forma, pois há registro de que o pintor lia Folhas de Relva, e há um livro de Whitman denominado Do Meio-dia à Noite Estrelada, anterior à pintura.
Outra área com íntima ligação com Whitman é a fotografia, já que o poeta foi a pessoa mais fotografada do século XIX. Como podem supor, a fotografia naquela época precisava ser trabalhada para poder ser impressa, e Whitman era muito cuidadoso nesse aspecto, e escolhia artistas capazes de dar à sua imagem uma expressão apropriada (para se ter uma ideia, na edição original de Folhas de Relva, 1855, havia apenas a fotografia do autor na capa; o nome do poeta só aparecia numa seção da Canção de Mim Mesmo).
Numa leitura mais cerrada da obra dele, em qual posição você o colocaria no panteão dos grandes poetas da história?
Certamente, junto a todos os grandes, nem acima, nem abaixo, como ele gostava de dizer, mas principalmente entre aqueles que representam nações e/ou foram revolucionários no seu tempo, como Homero, Shakespeare, William Blake, R. W. Emerson, , Emily Dickinson, T. S. Eliot, Ezra Pound, Dante Alighieri, Luís de Camões, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Oswald de Andrade, Pablo Neruda, José Martí, Maiakovski, Federico García Lorca, Goethe, etc.
De novo, este tipo de opinião acaba sendo estreita, pois sempre haverá quem discorde ou ache que outros autores deveriam ser incluídos.
Da minha parte, digo apenas que essa seleção é ditada pela minha memória literário-afetiva do momento, e não por critérios densamente elaborados.
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aprendi muito agora ,
lendo voçe
em palavras de poeta,
sobre poetas .
Parabens!
E continuemos no caminho : faça seu dom,sem esforço
Um abraçao
leticia aguia