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A literatura é um extraordinário refúgio diante da refração ao pensamento essencialmente crítico. É nela onde ainda estamos mais precavidos da magnetização infligida pela frivolidade estética, presente em tantas outras mídias que por aí hibernam no nosso microcosmo cotidiano. Digo isso, pois a literatura nos obriga a pensar um pouco mais do que estamos cotidianamente induzidos a fazer. Essas outras tantas manifestações, que aqui rechaço em parte, além de comunicar e distrair, angustiam nossos olhos e ouvidos ininterruptamente e não trazem nenhuma grande melhoria significativa no que tange ao desenvolvimento intelectual.
A rotina impõe ao homem muitas vezes uma praticidade imperativa que pode fluentemente solapar a introversão – carecemos com frequência de uma fuga para nosso próprio planeta interno. Acabamos, em prol da eficiência profissional, deixando nossas idiossincrasias debaixo no tapete. Essa escapada de dentro para fora é um adestramento mental essencial para sobrevivência, mas também por outro lado fatigante. O cansaço do homem para ser humano de fato pode levá-lo para longe de seu modo excepcional de ver as coisas. Fugimos da viagem para o centro da terra da mente para afundar num oceano externo dispersivo.
Evitar constantemente com golpes de pragmatismo a sublimação da esfera real machuca a cabeça do lado de dentro. Quando somos impelidos a refletir menos e atuar mais assertivamente de forma, por vezes, robótica, molestamos o corpo intangível: aquele que pensa. Infelizmente, o pensamento é definitivamente uma pedra no meio do caminho de muita gente.
A leitura não é um ato passivo no qual palavras são deglutidas num mero exercício ocular. Ela engendra indissoluvelmente um corolário de raciocínios. Não digo que somos amebas diante duma tela de cinema ou dum comercial de televisão. Sempre estamos processando a informação, mesmo na mais pura vagabundagem receptiva. Nem quando passamos por um outdoor de alguma marca de refrigerante ou quando lemos atualizações de amigos nas páginas do Facebook estamos meramente engolindo vocábulos sem mastigar direito. Acontece que no instante de alguma leitura mais atenta (um livro, um artigo de revista ou até um crônica boba de jornal), necessitamos de uma atenção que nenhum outro fenômeno midiático nos suscita. A leitura prescinde de uma hiper-atenção exclusiva.
Ler exige certo ânimo. A leitura deve tornar-se um hábito para ganhar importância dentro da gente. Isso tudo demanda tempo e abnegação. É imprescindível deletar o mundo exterior enquanto deitamos os olhos em parágrafos.
Ler é para poucos, pelo menos num país como o nosso, onde a educação escolar básica é de péssimo nível e a universitária está restringida às classes mais privilegiadas. É difícil para alguém desvendar o mundo literário por livre e espontânea vontade. Se nossa sociedade não dá condições institucionais para parte significativa da população exercitar os neurônios, como o pessoal vai começar a ler?
Podemos pegar gosto pelos livros através de nossa convivência afetiva com amigos ou mais certamente na nossa casa, mas isso é privilégio de poucos. Não quero aqui delegar apenas para as instituições educacionais o papel de formadoras de leitores, mas onde os não-iniciados na vida dos livros vão encontrar o primeiro incentivo? Possivelmente não será no Big Brother Brasil.
O acesso à informação está cada vez mais democrático. Estranho que a formação intelectual dos indivíduos brasileiros ainda seja tão deficitária… Não há uma (mal)dita pungência nas classes emergentes no Brasil? Acontece que o sujeito compra uma tv de plasma mas não sabe se associar se escreve com dois ss. A liberdade econômica imensamente festejada pela mass media e pelo senso-comum é paradoxalmente escoltada por um marasmo no desenvolvimento intelectual do povo. A liberdade para comprar parece ser suficiente para forjar um país no quesito de desenvolvimento. É laureada a nova posição avançada do país dentre as maiores economias do mundo para logo depois serem lembradas nos telejornais nossa humilhante posição nos rankings de desenvolvimento humano.
Para um país andar para frente, deveríamos olhar um pouco para trás e ver que ainda estamos estancados naquilo que realmente torna uma nação potente: a formação intelectual de seus habitantes. Sem pensamento crítico das massas, o resto continuará assim como está. Mas quem disse que as pessoas querem uma sociedade que pense mais? Quem disse?
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