A liberdade de imaginar: um papo com Diego Petrarca

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Foto: Fernanda Bigio Davoglio

 

Diego Petrarca nasceu em Porto Alegre em 20 de março de 1980. Mestre em Teoria Literária – Escrita Criativa. Publicou três livros independentes: Nova Música Nossa (crônicas, 1998), Mesmo (poesia, 2003), Via Cinemascope (poesia, 2004),  e uma edição-xerox, Banda (poesia, 2002). Premiado em concursos literários. Integrou mais de 11 antologias por editora convencional. Publicou textos e poemas em jornais e revistas. Trabalha em projetos literários: leitura em público, produção de eventos e jornalismo literário. É professor de literatura e ministra oficinas literárias em órgãos de cultura em Porto Alegre. Está para lançar em breve o livro de haicais Vento & Avenca. Mantém o blog literário Lado Dentro.

Bati um papo sincero sobre literatura com ele e aqui reproduzo:

Como você enxerga de maneira geral a cena literária gaúcha hoje?

Observo a prática de uma produção literária variada, que abrange todos os gêneros. A literatura infanto juvenil também tem o seu destaque e a profusão de novos autores tendem a concentrar-se no conto e na poesia, no romance em menor escala. Existe também uma tendência a uma certa padronização do texto objetivando uma aceitação ao meio literário, o que a meu ver restringe um pouco a ousadia do discurso.

 Você considera o RS um estado ainda muito conservador em termos artísticos?

Existe sim a manutenção de uma visão conservadora, que prefere pensar a experimentação  não como um projeto estético, como deveria ser, mas como algo que deseja chamar a atenção pela diferença. Há uma resistência clara nesse sentido, sobretudo na literatura. Talvez essa prática conservadora venha um pouco dos meios acadêmicos que ainda exalta o clássico como parâmetro definitivo e também por ela ser o lugar onde se concentra boa parte dos teóricos e pensadores da literatura em nosso estado. A preservação do clássico deve ser considerada como referência sempre, mas não a ponto de estranhar a novidade ou uma experimentação, parece mais cômodo repetir sempre o parâmetro canonizado.

Qual espaço que a poesia ocupa hoje na literatura brasileira?

A poesia ocupa um super espaço, creio que cada vez mais. A  produção poética é crescente, novos autores, editoras de pequeno porte editando poesia, em todo lugar do país. O que acontece é que a poesia perde espaço em termos de mercado, como produto. Isso não é de hoje e atribuo esse fato a própria natureza da poesia, que ressalta o trabalho mais sofisticado com a linguagem,  não é exatamente o gênero que tende a uma comunicação e compreensão imediata e isso vai contra as regras de mercado, que visão uma quantidade. No entanto, a poesia para ser um bom produto (falando mesmo de mercado) deve justamente optar por essa pesquisa estética, esse artesanato com a linguagem, a busca pela novidade e experimentação do discurso. Essa é a verdadeira prática da poesia, em que a língua respira, onde o texto é elástico, mutante. O espaço que poesia continua ocupando se confirma nos debates, nos encontros, na produção, nos saraus, nas canções, na arte plástica, há sempre uma referância vinda da poesia. Muita gente quando começa a escrever, opta pela poesia. E todo texto que pretende mudar a litertaura, usa a poesia como meio. O espaço que a poesia perde é o espaço de mercado. Embora faça parte do sistema literário, não existe só a referência mercadológica para determinar e definir uma ideia real do espaço que ocupa a poesia. Portanto, o espaço que a poesia ocupa é de estar sempre no em torno da produção e do debate literário. Evidentemente, muitos autores não seguem escrevendo poesia para justamente facilitar a sua inserção no mercado.

As pessoas estão lendo menos?

Sempre me pareceu difícil responder essa pergunta. O que eu percebo é que existem inúmeros projetos de incentivo a leitura, estimulando as pessoas a conviver com os livros, isso é ótimo e gera belos resultados, até como uma possibilidade de atuação do próprio escritor, como mediador entre livro e  leitura. Acredito que ler é um hábito que só será incoprorado na vida do sujeito se ele praticar, como todo hábito. E mesmo as classes sociais mais abastadas, que a princípio tem acesso ao consumo do livro, não determinam uma prática leitora. A todo momento a leitura está próxima de nós: placas de trânsito, publicidade, internet, mas ler não é apenas ato físico, é reflexão, pensamento, a verdadeira leitura é a fruição do que lê, e desse jeito talvez a leitura não seja usufruida na escala que deveria.

Com as pessoas cada vez mais hiperativas e hiperestimuladas, não vai ficar cada vez mais difícil para as pessoas sentarem num canto, abrirem um livro e terem prazer com isso?

Retomo a pergunta anterior, que me refiro ao hábito. Quem tem o hábito vai achar tempo para ler, pois aquilo está envolvido com sua rotina, até com seu bem estar. Talvez exista o conceito de que, já que o mundo está numa velocidade que nos exige ação e rapidez, ler é um esforço desnecessário, pois perdemos muito tempo lendo enquanto poderíamos estar resolvendo muitas coisas. Cada um terá sua prioridade. Creio que leitura também é autoconhecimento, é necessário achar um motivo muito íntimo às vezes para a prática da leitura, que justifica essa dedicação ao texto. Quem ainda não tem a prática da leitura talvez não tenha encontrado esse motivo singular.

Quais escritores brasileiros vivos valem muito a pena serem lidos?

Muitos, inclusive os novos autores. Mas vamos aos conhecidos de um público maior: Ferreira Gullar, Rubem Fonseca, Adélia Prado, João Ubaldo, Glauco Mattoso, Francisco Alvim, João Gilberto Noll, Manoel de Barros, Chico Buarque, Alice Ruiz, Carlito Azevedo, Affonso Romano de Sant’anna, Ruy Castro, Antonio Cícero.

Dos antigos, quais são seus grandes mestres nacionais da literatura ou aqueles que fizeram você se magnetizar pelo universo das letras?

Muita coisa me influenciou, uns de modo mais intenso e abrangente, que destaco aqui. Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu me bateram de um modo muito especial. Guimarães Rosa quando descobri li quase toda a sua obra. Manuel Bandeira foi fundamental pra minha produção poética. Augusto dos Anjos e Alvarez de Azevedo. Depois Ferreira Gullar, João Cabral de Mello Neto, Vinícius de Moraes. Depois Paulo Leminski, Ana Crsitina Cesar. A poesia concreta e os poetas da geração mimeógrafo, como Wally Salomão e Torquato Neto. As crônicas de Rubem Braga e Nelson Rodrigues. Não posso deixar de considerar as letras de Caetano Veloso, Renato Russo, Cazuza, Arnaldo Antunes e Julio Barroso.

Na sua produção literária quais autores estão refletidos de alguma forma?

Praticamente todos os autores mencionados na pergunta anterior. Traçando de um modo mais específico, imagino que as minhas influências mais evidentes infiltradas na poesia que escrevo parta da metaforização simbolista, a inovação do modernismo de 22 e seus desdobramentos de estilo, depois a poesia concreta, o tropicalismo, a geração mimeógrafo e a poeisa de alguns letristas do rock do anos 80. As conquistas formais e também a contribuição da chamada contracultura, assim como a prosa experimental de alguns poetas Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. Esses autores me influenciam de forma mais descarada.

Você se lembra quando fez o primeiro poema?

Certamente foi na infância, numa brincadeira ou tema de aula. Mas os primeiros poemas com  a consciência de estar fazendo poesia como projeto de criação, interado das informações do gênero, foi entre os 12 e 15 anos.

Existe algum método pra você escrever? Você se considera um poeta disciplinado?

Meu método é fragmentado, escrevo aos pedaços e depois vou editando, combinando frases e palavras que geram algum efeito. A medida que vou fazendo o poema é que vai se criando o tema, o conteúdo é determinado nesse embate com as palavras, no corpo a corpo com a linguagem e numa tentativa de extrair novos significados de forma e conteúdo. Um pouco desse método vem da técnica cut-up, criado por William  Burroughs. Penso que a disciplina vai contra a criação artística, o pensamento criativo, o imaginário, não pode estar restrito a uma disciplina, mas a um método em que se opera um rigor, não exatamente a   disciplina. Tem poemas que penso na escolha vocabular, o número de versos e sílabas antes de escrever, mas não é uma prática muito recorrente.

Você escreve por necessidade pura ou restringir a escrita a isso é idealismo?

Não considero a necessidade de escrever um idealismo. No fundo a necessidade que rege tudo, que motiva e orienta o resto. Também penso que essa necessidade é um ponto de partida, mas além dela existe o esforço, o raciocínio e um artesanato com a palavra que são imprescindíveis. A necessidade não é um mito, existe sim e é latente na prática com a escrita. O artista necessita criar, é extensão da sua existência. No entanto, a necessidade não é um elemento isolado.

Qual o máximo de tempo que durou sua última crise criativa?

Não lembro de nenhuma crise criativa grave. Até porque minha prática literária é autônoma, raramente trabalho sobre encomenda, desse modo escrevo quando estou disposto. O que acontece é um período longo em que só aparecem anotações, rascunhos, peças esparsas, nenhum acabamento nem poema pronto, apeans esboços, o estar fazendo.

Foto: Claudia Andujar

Você é um grande amante da música também. A letra de música popular brasileira hoje perdeu o brilho que tinha na década de sessenta e setenta ou isso é saudosismo de gente chata?

A importância que a letra de música teve em minha formação é tão intensa e equivalente à poesia impressa nos livros. Por isso reconheço ser muito importante essa atenção à produção recente das letras de música. Observo que os mestres nessa área que seguem produzindo seguem a conhecida e fundamental qualidade de sempre em seus trabalhos, mesmo que não haja um projeto explícito de renovação ou experimentação, mas ainda são bons textos, bons poemas, alguns deles até se seguram sem a melodia. Não acho que a produção recente tenha perdido o brilho, os bons letrsitas seguem escrevendo, mas na múisca a poesia é apenas um elemento muito relevante, pode-se fazer boa música sem um apuro arrojado da letra e talvez  hoje em dia a valorização da letra esteja concentrada em trabalhos de artistas mais sofisticados que nem sempre alcançam o grande público. E o que fica é mais o embalo musical do que o disurso.

Quais letristas brasileiros atuais fazem você ver poesia onde há melodia?

Destacaria Zeca Baleiro, que incorpora a poesia de livro também em suas canções, Lenine, alguma coisa do rap paulista, algumas letras de samba recente, Adriana Calcanhoto, Lirinha do Cordel do fogo encantado, que retoma o cordel para a cultura e massa. Arnaldo Antunes, Marina Lima e Tom Zé. As parcerias de Ed Motta com o letrista do Skank, Chico Amaral.

Da velha-guarda, quais são os maiores compositores do nosso país pra você?

Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves, Cartola, as marchinhas de carnaval do Lamartine Babo, com belas sacadas frasais inclusive muito aproximadas aos textos modernistas de Oswald de Andrade. Vinícius de Moraes, o grande elo entre a poesia de livro migrada pra canção sem perder a poeticidade dos livros. As letras de Tom Jobim são excelentes, as de Gilberto Gil e Herbert Vianna também.

A música brasileira é mais importante para o Brasil em termos de identidade nacional do que nossa própria literatura?

Certamente o valor que a música brasileira tem no Brasil é equivalente a importância da nossa literatura como marca nacional. Isso é um fato cultural, o Brasil é um país musical e com um indíce de analfabetismo imenso, naturalmente a música irá sobressair como identidade nacional.  Nesse sentido que a poesia, enquanto gênero, se beneficia, pois ela é a plena integração com a música, traz consigo  o elemento musical em sua origem, o trânsito é natural. Os modernistas queriam afinar o seu discurso poético de acordo com as marchinhas de carnaval de Lamartine Babo justamente para alcançar uma dicção mais coloquial, mais ligada às canções. Não é à toa que muitos poetas de livros migram pra canção e muitos poetas da canção ganham o status de poeta no mesmo patamar intelectual dos poetas do livro. Isso eu acho muito bom, porque de certo modo a alta e baixa cultura se afinam e geram um objeto atísitco de uma grandeza imensurável, reconhecida em todo mundo.

Para fechar o papo, por que ler é libertador?

Ler é praticar a mais plena e imbatível das liberdades: a imaginação. Se existe uma forma de liberdade para além do conceito, é pela imaginação.

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