O homem que amava as histórias

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Truffaut é uma espécie de artista que faz muito falta hoje em dia. Crítico de cinema, roteirista, pesquisador, ator e diretor, o francês surgiu numa época de renovação radical na sétima arte e com sua pujança e parceria com outros grandes mestres franceses, mudou a cara e as cores da história do cinema. Unia na mesma persona vários predicados raros nos principais cineastas dos anos 2000.

Passando a limpo sua vasta filmografia, notamos antes de tudo que ele era um grande contador de histórias. Seus roteiros eram extremamente bem esboçados, romances construídos visualmente com a precisão e fluidez dignas de um grande escritor. Suas películas são suavemente construídas pela inteligência sensível e por uma técnica cinematográfica que está a serviço da suprema arte da ficção.

Numa era como a nossa onde as imagens tomaram conta de quase tudo, é cada vez mais raro surgirem filmes com histórias de qualidade notadamente literária. A obsessão pelas novas tecnologias e o culto exagerado à hiperexcitação dos sentidos visuais, bloqueou significativamente a dimensão básica de qualquer dramaturgia: contar uma história.

Quando assistimos aos filmes desse grande realizador de ficções, somos delicadamente entrelaçados na trama sutilmente arquitetada e acabamos sem querer nos apaixonando pelas mulheres que perfumam seus filmes e simpatizando com seus personagens masculinos supercarismáticos. Truffaut soube como poucos cineastas elucubrar a relação entre um homem e uma mulher e as idas e vindas do coração, sem ser brega, fútil, melodramático ou apelativo. Suas love stories eram astutas e destoam muito daquelas que hoje vemos em cartaz nos cinemas. Não há nenhuma apelação à violência gratuita, ao sexo descartável, a fúteis maneirismos visuais ou a trilhas sonoras que levam apelativamente ao choro. Claro, ele era de outra época, diriam as más línguas. Como seriam seus filmes hoje? Teriam ainda aquela inocência da década de sessenta?

Atualmente, o “amor” é tratado na maioria dos filmes de modo bem diferente. O pragmatismo crescente de muitas relações humanas e a busca desenfreada por um hedonismo sexual exagerado na sociedade de consumo não dá muita margem para produções cinematográficas que tratem com maior singeleza os laços afetivos. Truffaut era de outra época e acionou muito bem aquele espírito aventureiro da década de sessenta, onde a tradição somava-se à contravenção estilística (contar histórias de modos criativos) e ainda imperava um idealismo sobre o futuro do homem.

Depois de uma década no novo milênio, as salas de cinema são sitiadas por muitas produções que mais parecem telenovelas mexicanas ou por outras onde o mais importante é contabilizar o maior número de cenas de sexo possível. Paradoxalmente, surgem com constância títulos onde os relacionamentos afetuosos são infantilizados e tratados com uma meiguice viscosa e cansativa. Em qualquer um desses casos, há um conformismo e certa mecanização da subjetividade, uma robotização da paixão. A verdade é que o mundo mudou muito e certos filmes de Truffaut hoje soam um tanto ingênuos, devido a suas figuras dramáticas sonhadoras e líricas.

Enfim, o fato é que poucos cineastas hoje conseguem conceber histórias de qualidade. Muitos deles parecem não gostar muito nem de ler. As novas gerações de criadores audiovisuais passam mais tempo no YouTube que nas livrarias. Muito são analfabetos em matéria de literatura e dramaturgia. Preferem ver um videoclipe ao invés de ler uma tragédia grega. Vemos “mestres” da técnica , cineastas-publicitários, diretores técnicos em efeitos especiais, mas é cada vez mais raro encontrar verdadeiros criadores de grandes enredos ficcionais.

Cinema é imagem. Mas cinema também é texto.

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