781 acessos
Conversei essa semana com meu amigo-poeta Guto Leite. Poeta dos livros zero um (2010) – indicado ao Prêmio Açorianos -, (7Letras, 2007), Sintaxe da Última Hora (Scortecci, 2006) e Reflexos (FEME, 2000). Seu quinto livro será publicado este ano pelo edital do Instituto Estadual de Livros para originais. Co-roteirista dos filmes de curta-metragem Estado Senil (2009), Revés (2008) e Bons sonhos, Maria (2006). Linguista pela Unicamp, especialista, mestre e doutorando em Literatura Brasileira pela UFRGS. Atualmente trabalha como professor temporário de Literatura Brasileira na UFRGS. Seu site pessoal é www.gutoleite.com.br.
O resultado desse nosso papo poético um tanto elíptico, como toda boa arte, está aqui:
Qual foi o primeiro autor que fez você se apaixonar pelo cosmos literário?
Monteiro Lobato, certamente. Outros grandes impactos foram Machado de Assis, Drummond, Rimbaud, João Cabral, Graciliano, Dante, Joyce e Guimarães Rosa, pela ordem.
Qual autor ainda vivo faz você se apaixonar mais ainda por literatura?
Se apaixonar é difícil. Dos vivos, tive no máximo um pequeno romance com os escritos de Manoel de Barros, Paul Auster, Coetzee, Lobo Antunes, Rufatto.
Sendo você também um artista musical e apaixonado por cinema, quais seriam seus mestres nessas duas áreas?
Na música, tem um monte, de Beatles a Chico, passando por The Doors, Pink Floyd, Caetano, Morphine, Noel Rosa, Caymmi, Joplin… Tudo muito desigual em acertos e representatividade. No cinema, gosto muito de Truffaut, Bergman, Hitchcock, John Hughes… Também são muitos.
No cinema atual, qual diretor instiga mais seu senso estético?
Os irmãos Coen, Wim Wenders e Tarantino são imperdíveis, eu acho. Também costumo assistir Almodóvar, Woody Allen, Clint Eastwood, Lars von Trier e outros, mas nesses casos sei que posso estar pagando para ver a formalização de um fetiche qualquer.
Na história do cinema nacional, em quais diretores você vê a sétima arte em potência mais criativa?
O Glauber Rocha é o cara, não tem jeito. Tem uma posição análoga à de Nelson Rodrigues no teatro, os outros tão bem distantes do grau de realização que ele conseguiu, do tanto de tensão que ele está colocando na forma. Gosto dos filmes do Jorge Furtado, do Fernando Meirelles e, olha, apesar de cedo, vale conferir quando o Selton Mello se arrisca.
Tratando-se de música, qual compositor faz você chorar ao ouvir um verso dele cantado?
O Chico é especialmente habilidoso nisso de fazer chorar. Outro dia mesmo, eu estava conversando com uma amiga a respeito de uma canção do Chico e ela chorou. Não raras vezes ele consegue esse encantamento. Outros também me fazem chorar de vez em quando. Choro às vezes intelectualmente, quando me deparo com o assombro do acerto. Neste caso nem precisa ter a tarimba do Chico.
Letra de música é poesia (odeio essa pergunta)?
Não, letra de música é letra de música. É feita para ser letra de música, e isso muda tudo. Não quer dizer que seja pior do que poesia, nem melhor. Tampouco quero dizer que ser feito para algo impede que possa ser lido de outro modo. Só quero dizer que quando escrevo letra de música, tendo a melodia antes ou sabendo que alguém vai colocar melodia depois, faço outra coisa, que não é poesia. Claro, pode se escrever uma letra de música com alguma ambição de poema no horizonte. E também é possível escrever poema com aquela vontade de canção. Dizer que letra de música é poema é um desserviço do ponto de vista crítico, é não entender a especificidade de um gênero. Beleza, você pode dizer que cinema é poesia, que teatro é poesia, que letra de música é poesia, mas isso é reflexão de bar, de roda de amigos.
No seu trabalho artístico-literário, qual o primeiro impulso na hora de criar?
O primeiro impulso pode vir de uma imagem ou reflexão metafórica, nesse sentido estou bem perto do Octavio Paz no modo de pensar a poética. Também pode vir de um achado linguístico, palavras que se parecem e seus conceitos acabam, por isso, implicados, e formadores de uma imagem comum. Depois desse primeiro tempo, de “inspiração” ou descoberta, é o trabalho para desenvolver a imagem, a linguagem, o tema, as implicações etc.
A criação é um sofrimento?
Em certo sentido sim, mas o jogo é mais sofisticado. Há sofrimento porque via de regra leva a um conhecimento imprevisto, às vezes autoconhecimento, quase sempre autoconhecimento, mesmo se for exclusivamente sobre algo outro. Da outra ponta, é sempre um prazer. Uma vez o João Bosco comentou que o momento de criação nos faz sentir superiores por alguns instantes, depois vem a queda. A ascensão e a queda. O sofrimento e o prazer. Durma com um barulho desse.
Criação exige concentração. Não está cada vez mais difícil se concentrar atualmente com tanta informação perambulando no ar?
Não, o tipo de concentração é diferente, não pior. Aliás, sou quase capaz de defender que, para o artista ser orgânico – caso queira –, ele precisa transformar em forma literária esse tipo de concentração contemporânea. Ou seja, é possível que, caso simule para si uma materialidade distinta desse entrechamento e entrincheiramento, acabe fazendo, no máximo, uma ótima realização de outra época (mimeógrafo, beat, tropicalista, cabralina, moderna, marioandradina, simbolista, soneto, o que for…).
Viver na arte ou viver pela arte?
Viver é arte. Dissociar é não entender o quanto vão juntas. Tenho sinceramente muita dificuldade em distingui-las. É quase um problema moral.
Comentar com seu user do Facebook
Powered by Facebook Comments







