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Ao pensar em como começar este texto, me lembrei de um antigo episódio dos Simpsons. Sim, sei que parece estranho começar falando de um seriado televisivo já que o assunto são histórias em quadrinhos, mas tenha paciência, caro leitor.
Bem, no episódio citado acima, o eterno pestinha Bart Simpson frauda um teste de aptidão e acaba ganhando uma vaga em uma escola para alunos superdotados. Chegando lá, a sua professora o leva para conhecer a escola, que é muito bem equipada, suas salas forradas de estantes com livros. Bart passa os olhos por uma prateleira, cheia de clássicos da literatura, de mestres como Shakespeare e Dostoiévski, mas o que atrai sua atenção é justamente uma revista em quadrinhos de seu super-herói favorito, o Homem Radioativo.
E é nesse ponto que vem a grande piada desse episódio. A professora tira a revista das mãos de Bart, enquanto diz: “Uma revista em quadrinhos? Isso não deveria estar aqui. Usamos ela semana passada durante um debate sobre o analfabetismo.”
É estranho como as histórias em quadrinhos são vistas por algumas pessoas como uma forma de arte menor. Vivemos em uma era de imagens, elas estão sempre ao nosso redor em fotografias, filmes, e na televisão. Vemos centenas de imagens por dia, e muitas vezes elas passam tão rápido que mal podemos distingui-las, e muito menos extrair algum significado delas. No entanto, os quadrinhos seguem uma direção diferente, a de usar a imagem junto com o texto, para extrair um significado específico. Uma história em quadrinhos não é só texto e nem é só imagem. É o recurso de combinar as duas que, se bem usado, alcança um sentido maior.
Mesmo assim, essa forma de arte sofreu duras críticas ao longo de sua história. Assim como atualmente o debate é sobre jogos de videogame, que são acusados de corromper as mentes dos jovens, em outra época a bola da vez foram os quadrinhos. Em 1954, o livro Seduction of the Innocent, escrito pelo psiquiatra americano Fredric Wertham, associava as histórias em quadrinhos com casos de delinquência juvenil. Um best-seller em sua época, esse livro provocou ataques de histeria, culminando em queimas de revistas em quadrinhos em praças públicas. Um duro golpe em uma mídia que aos poucos se desenvolvia.
Apesar de todos os percalços, os quadrinhos continuaram a existir e a se desenvolver. Hoje, existem milhares de títulos, e engana-se quem pensa que eles se destinam apenas a crianças. O quadrinista Joe Sacco mistura jornalismo e quadrinhos para contar suas próprias experiências em áreas de guerra como a palestina; Alan Moore escreveu sobre o medo da aniquilação nuclear em sua obra-prima, Watchmen. Até o holocausto nazista já foi retratado, no excelente Maus, de Art Spiegelman, que recebeu um prêmio Pulitzer em 1992.
E o que trará o futuro para os amantes das histórias em quadrinhos? Só podemos esperar para ver, e torcer para que preconceitos não atrasem o desenvolvimento dessa forma de linguagem tão incompreendida.
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