O absurdo do mundo e algumas perguntas para Rafael Sperling

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Meu amigo-escritor Rafael Sperling nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Compositor e produtor musical, estuda Composição na UFRJ, além de escrever esporadicamente no blog Som e Sentido. Participou da Balada Literária (2011) e da Festipoa Literária (2012) lançando seu primeiro livro, Festa na usina nuclear (Oito e Meio).

Fiz algumas perguntas pra ele:

 

No seu livro há uma mistura de sarcasmo, coloquialismo e de uma latente pornografia. Como juntar esses ingredientes sem soar apelativo?

Creio que esses ingredientes, por si só, não sejam apelativos. O que torna apelativo um texto que se utiliza esses ingredientes é a intenção em ser apelativo. O que eu geralmente escrevo é um tanto lúdico e despretensioso, se você for parar para ver, não costumo me levar muito a sério nesse sentido. Diria que o sarcasmo é o lado lúdico da coisa, enquanto o coloquialismo acentua essa despretensão. E, além disso, como já disseram, eu utilizo o sexo de uma maneira não-romântica ou erótica.

Quais são seus grandes mestres literários? 

Talvez o meu maior seja o Kafka; posso dizer que lendo seus livros que comecei a sentir vontade de escrever. Gosto muito também do Ionesco, Beckett, Borges, Cortázar. Dos brasileiros, cito André Sant’anna, Verônica Stigger, João Gilberto Noll, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Roberto Piva…

O que pode e o que não pode faltar num texto?

Acho que o que pode faltar num texto é o autor tratando o leitor feito um retardado, escrevendo obviedades e o conduzindo como fosse um aleijado mental. Certamente isso é algo que se vê muito por aí.

O conto lhe atrai por que razão?

Acho que a pergunta poderia ser “E por que não o conto?”. Não é que o conto me atraia especialmente por um motivo específico, mas é o que parece ser o mais natural de se fazer. Pelo tipo de coisa que venho escrevendo, o conto é a forma que está mais adequada ao que quero passar. Na verdade não gosto muito dessa denominação, pois acho que o que escrevo tem alguma relação com a poesia, quase como se fosse uma anti-poesia, talvez, e acho também um tanto anti-literário, por assim dizer. Além disso, muitas vezes escrevo “contos” em formatos não tradicionais, não-narrativos, como o meu “Maneiras de se quebrar um ovo”, que é uma lista de ações, de maneiras de se espatifar um ovo, ou então o “Manual de Comportamento”, que nada mais é do que um artigo ditando como alguém deve comer, beber ou se matar em público.

Além da literatura, qual das grandes artes inspira você de verdade?

Estou sempre indo a exposições de arte contemporânea, gosto especialmente de obras multimídia, ou que envolvam eletrônica ou robótica. Gosto muito de filmes também; diretores como Werner Herzog, David Lynch, Jan Svankmajer e Apichatpong Weerasethakul me inspiram bastante. E diria que a Internet acaba me influenciando também, uma vez que acabo sendo “invadido” por uma avalanche inesgotável de informação todos os dias.

A linguagem literária contemporânea não está coloquial e descontraída demais?

Não sei se conheço a cena da literatura contemporânea a ponto de dar um “veredicto” nesse sentido — há muita coisa sendo feita por aí! De qualquer forma, das coisas que tenho lido, acho o contrário, que em geral a linguagem da literatura contemporânea é muito séria e careta demais. Principalmente nas grandes editoras, nota-se claramente um “medo” de publicar algo que fuja muito do comum, e que talvez possa espantar os… sensíveis e indefesos leitores, digamos assim. E vejo que, mesmo em alguns escritores que tentam fazer algo que fuja disso, acaba sendo uma falsa fuga, acaba sendo uma obra careta travestida de “coloquial e descontraída”.

Um romance que lhe atrai é aquele onde há uma proximidade com a poesia ou com a realidade?

Certamente com a poesia; posso citar o História do Olho, do Georges Bataille, que seria uma espécie de poema em forma de romance. Me identifico muito com isso, que acaba resvalando na minha escrita. Gosto mais da literatura que se aproxime do irreal, nonsense, ou de uma realidade absurda. Não acho que hoje em dia faça sentido escrever algo que se aproxime de uma estética demasiado realista. O mundo em que vivemos é estranho e absurdo demais a ponto de uma narrativa realista soar incongruente.

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