Conversando com Diego Grando: a palavra no presente

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Mais uma vez conversei com meu amigo e poeta Diego Grando. Ele lançou recentemente seu último livro de poemas Sétima do Singular e isso foi uma desculpa para um novo papo sobre literatura entre a gente:

Seu novo livro, começando pelo título, segue uma linha muito diferente dos seus trabalhos anteriores. Mais descontraído, metalinguístico e debochado, Sétima do Singular distancia-se do discurso drummoniano tanto utilizado por você anteriormente. Essa quebra de paradigma se deu como no seu processo criativo?

Bom, não sei se concordo com a afirmação de que meu novo livro é “mais descontraído, metalinguístico e debochado”. Ao menos não no todo: há nele mesmo uma contraparte mais tensa, com alguma sofisticação na linguagem e um tom mais nebuloso.

Não sei, portanto, se se trata de uma quebra de paradigma ou de um outro passo em direção à maturidade, no sentido de um maior domínio técnico, de um controle sobre o poema. Parece meio ridículo isso, mas é assim que eu vejo.

Sendo ou não uma quebra de paradigma, é um processo difícil de mapear, porque muito espalhado no tempo. Veja só: esse livro tem poemas que comecei a escrever em 2007, e meu livo de estreia, Desencantado carrossel, saiu em 2008. Então antes e depois são uma coisa só.

Mas entendo que o diferencial na composição desse livro foi o fato de poder olhar para o que eu já tinha feito, de compreender determinados efeitos e defeitos do meu primeiro livro, e também de conviver com uma certa responsabilidade depois da publicação do 25 Rua do Templo, que foi publicado antes mas foi escrito depois de Sétima do singular já existir (a maioria dos poemas, o conceito do livro). A poesia, de certa forma, anula o tempo.

Além da poesia, você também é letrista. Existe algum outro campo artístico que você deseja explorar? A prosa, por exemplo?

Não me vejo como letrista, na verdade. Calhou de eu fazer algumas parcerias com o Alexandre Kumpinski, algo na base da amizade e da admiração mútua.

Na prosa, sim. Tenho um projeto de romance, algum material escrito, mas no momento está engavetado. Fora isso, não tenho habilidade para mais nada.

Parece-me mais difícil para alguém se tornar poeta do que prosador. O que você acha disso?

Acho que depende a que tu te refere. Dificuldade técnica? Editorial? Social?

Eu não acho fácil escrever poesia, longe disso, mas é fato que me sinto mais à vontade, mais no controle da situação escrevendo um poema. Escrever prosa, pra mim, é extremamente penoso, porque exige algum desprendimento em relação à linguagem, um desapego à materialidade linguística, que é a base da poesia (ao menos da minha poesia, da minha concepção de poesia, da minha maneira de trabalhar um poema), que tenho muito dificuldade para assimilar.

Agora, do ponto de vista editorial, a poesia sempre foi menos publicada e lida e reconhecida. Isso deve representar alguma dificuldade. E, bom, socialmente ninguém deve estar interessado em ser reconhecido como poeta. Não serve para nada.

A moda de hoje parece ser escrever contos. Nas livrarias vemos diversos livros de novos contistas. Por um lado, o conto é um inevitável ponto de partida para o prosador, mas por outro você não acha que isso seja reflexo de nossos discursos cada vez mais fragmentados, imediatos e curtos?

Não. Vejo a questão do conto sob dois ângulos. De um lado, a narrativa breve tem uma tradição no Brasil, goza de um prestígio, e é natural, então, que essa forma seja praticada. De outro lado, tem o lance das oficinas literárias, que se voltam para o conto por questões práticas: é possível “trabalhá-lo” em sua totalidade (produzir, discutir, reescrever, rediscutir etc.), o que deve ser reconfortante tanto para quem ministra quanto para quem frequenta as oficinas. Faz parecer um trabalho de verdade. Sem contar que o conto, no âmbito da prosa de ficção, exige muito menos comprometimento em relação ao romance, em termos de esforço empenhado, tempo e resultado. Dá pra se sentir “autor” muito mais rápido.

Conto é, sem dúvida, o gênero que menos me interessa, e eu deveria corrigir isso.

Você não acha que as pessoas hoje em dia precisam urgentemente diminuir o ritmo alucinado de vida hiperindividualista e pensar um pouco mais no coletivo? A leitura é uma excelente porta de entrada para isso.

Quem sabe? “Ritmo alucinado” e “vida hiperindividualista” andam, necessariamente, juntos? Eu não sei. Talvez estejam faltando construções mais individuais, no sentido de independentes, de inadaptadas, porque, pra mim, a vida hiperconectada anula o indivíduo. Eu posso curtir e compartilhar algo sem saber direito o que é, sem ter um envolvimento mínimo, porque, no fim das contas, tanto faz, dá na mesma, tá todo mundo curtindo e compartilhando mesmo.

Nossos enunciados são cada vez mais rápidos, diretos e descartáveis. Precisamos respirar um pouco e escrever mais se for preciso. Que tal?

Acho ótimo. Pra mim, funciona. Mas não sei se vale pra todos. Longe de mim querer impor, sequer sugerir, que as pessoas leiam mais ou escrevam poemas ou contem os pássaros nas praças, com a desculpa de que isso vai melhorar a vida delas. Não vai. Ou é uma questão vital, ou é uma coisa puramente prática. Eu prefiro as coisas vitais, na veia.

A produção literária associada com nossa sociedade de consumo doentia pode cair numa simplificação tremenda em alguns casos. A literatura cada vez mais produto de pura diversão. Vejo hoje uma preguiça nas pessoas para refletir. É que de modo geral, vejo descontração demais nas artes e menos contestação. Gostaria que vocês discorresse um pouco sobre isso.

Olha, nada impede que a descontração (ou o deboche, voltando lá pro início da conversa) seja uma forma de contestação. Pra mim, qualquer expressão artística que tenha a contestação como principal objetivo (seja a contestação ética, política, estética, filosófica) tem tudo pra ser chata. Talvez Quadrilha seja muito mais contestador que Elegia 1938.

Agora, se a questão for “como produzir uma literatura boa E com potencial contestatório”, aí a coisa muda. Não acontece a toda hora, não vai acontecer a toda hora.

Acho que não dá pra achar que a literatura sempre foi isso ou aquilo e agora não é mais. A literatura historicamente ocupou um lugar periférico nas sociedades, temos que aceitar isso. O problema é que a gente vive no presente, e o presente, acho que em qualquer época, é insuportável. Aí a gente tende a achar que já foi muito melhor, mas sei lá.

Não tenho dúvida que a obra do Roberto Bolaño é muito mais contestadora que a do Victor Hugo, embora este pretendesse isso muito mais do que aquele. Vivemos a Era Bolaño, o que me parece suficientemente ótimo.

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