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Se você, amigo leitor, tinha idade suficiente pra dar atenção a música popular no final dos anos noventa, mais especificamente em 1999, deve lembrar da dupla Pepê & Neném, que através do hit “Mania de você” conquistou um disco de ouro e gozou de breve sucesso. Não vamos aqui discutir a qualidade musical das moças e muito menos entrar no mérito do bom ou mau gosto. O motivo pelo qual tocamos no nome da dupla se deve a repercussão da entrevista que concederam a jornalista Marília Gabriela no último domingo, no sbt.
As cantoras assumiram publicamente serem bissexuais (as duas gêmeas), e disseram que nunca namoraram com homens. Neném completou dizendo que sua primeira paixão foi com uma menina quando tinha 10 anos. Poupando-as de qualquer julgamento, entre a coragem do ato ou o possível oportunismo do mesmo, fica a pergunta: A homossexualidade ainda é tabu no meio musical?
A identificação entre a música pop e o público G.L.B.T.
O jornalista americano Malcolm Gladwell defende a tese de que grande parte da responsabilidade pela criação de fenômenos mundiais (como o sucesso de uma canção) deve-se a grupos relativamente pequenos, mas com capacidade para espalhar a moda para o restante da população. É mais fácil, diz ele, conquistar um grupo menor, que depois vai alavancar a ideia. Partindo desse raciocínio, justifica-se o motivo da música pop sair das casas noturnas e seus nichos para atingir as paradas de sucesso. A promoter Laís Pattak, criadora de uma festa à fantasia com o tema Lady Gaga, afirma: “A maioria do público é gay, mas muita gente, principalmente mulheres, começou a ir por causa da música”.
“O público é apaixonado pela cultura pop, lança sucessos antes de todo mundo, consome muito e fica desesperado por qualquer coisa nova que é lançada”, afirma o DJ Daniel Carvalho, principal estrela da Balada Mixta – festa paulistana destinada ao público gay, que já passou por Recife, Natal, Florianópolis, Porto Alegre, Uberlândia e Rio de Janeiro.
Entre os artistas que lideram as paradas estão Lady Gaga, MIKA, Scissor Sisters e Ke$ha, e todos tem um ponto em comum: conquistaram projeção internacional a partir da devoção de um público formado majoritariamente por homossexuais. Mesmo que os músicos não sejam gays, como é o caso da vocalista do Scissor Sisters, Anna Matronic, que não assumiu uma postura publicamente, a identificação nasce de forma espontânea.
Em matéria para a revista Época, os jornalistas Danilo Venticinque e Carlos Giffoni analisaram o tema. Segundo eles, na música pop dos anos 70, Elton John era uma exceção. Em sua maioria, artistas homossexuais de sucesso tinham receio de assumir publicamente sua sexualidade, com medo de que o preconceito prejudicasse sua carreira.
Nas décadas seguintes, o tabu permaneceu: George Michael, símbolo sexual dos anos 80, só revelou suas preferências depois de ser preso em 1998, acusado de ter relações sexuais com outro homem em um banheiro público. Ricky Martin, ídolo dos anos 90, só assumiu ser homossexual em 2010, muitos anos depois de seu auge como cantor. No pop atual, a homossexualidade é encarada de forma natural.
Perante a afirmação de que no cenário atual, o tema é encarado com naturalidade, tenho cá minhas dúvidas. Se for relacionado ao pop mundial, sem dúvida. Mas em termos de Brasil, o reacionarismo ainda impera e com certeza ganha destaque em programas sensacionalistas da tv aberta. Se não fosse assim, a entrevista de Pepê & Nenêm, não teria tamanha repercussão.
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Só resta um monitoramento mais aprofundado em entidades religiosas, e comerciais religiosos (de mais de 4 horas) que ainda ocupam os espaços publicitários para disseminar preconceito.