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Contra o que devemos nos indignar hoje em dia? Qual o nosso alvo de ataque cardinal? Na década de sessenta e setenta os jovens saíam às ruas para condenar uma ditadura, havia inevitavelmente um inimigo maior em comum que precisava ser derrotado, um alvo específico contra o qual se insurgiram milhares de pessoas. Desde a redemocratização do Brasil, não tivemos nenhum outro grande movimento de massa nas ruas exceto os caras pintadas que exigiram a saída de Collor da presidência da república.
Parênteses: Collor hoje é senador da república, devidamente eleito pelo povo e um dos mais atuantes no congresso. Vivemos hoje numa sociedade cada vez mais fragmentada, na qual as lutas sociais são regidas por diversas questões específicas. Não há mais um alvo maior contra o qual irromperemos em conjunto nossas flechas. Outro dado essencial é o esfacelamento do ideário das organizações sociais. Observemos o caso dos partidos políticos. Hoje temos um número infindável de siglas no Brasil e é cada vez mais complicado distinguir a ideologia de cada uma delas. São inacabáveis partidos que confundem nossa cabeça. Se eu por acaso fosse um extraterrestre e descesse exatamente agora no Brasil querendo escolher um partido para me filhar ficaria zonzo. Mesmo que eu tivesse claro meu posicionamento ideológico (esquerdista, centrista ou direitista) não saberia em qual agremiação assinar minha ficha.
Numa época você era getulista ou da UDN, depois você era da ARENA, do MDB ou da guerrilha, depois você era petista, antipetista ou brizolista. Atualmente essas distinções caíram por terra. Quase todos os partidos já se aliaram no Brasil em alguma esfera, seja municipal, estadual ou nacional. O PMDB, inimigo histórico do PT, hoje é seu principal aliado. O governo FHC, tão defenestrado pelos petistas, serviu de modelo para vários programas implementados pelas gestões Lula-Dilma. Os antes insolentes Collor, Sarney e Maluf, inimigos mortais de Lula, hoje são seus confidentes e aliados. Os próprios tucanos costumam elogiar muito a nossa presidenta. De fato nossa arena política está completamente desvairada e ilogicamente decrépita.
Espraiando mais ainda minha análise, observamos o caso dos sindicatos. Vários deles estão atrelados ou financiados pelo poder público e cada vez mais corruptos, perdendo muitas vezes seu viés contestatório e representativo do direito dos trabalhadores. Muitos deles são apenas espaços propícios para a ascensão de candidatos a cargos públicos. Apesar dessas peculiaridades sempre estivessem presentes na cultura sindicalista, havia num período certa “idealização” da classe trabalhadora que labutava pelos seus direitos. Não vemos mais isso no novo milênio. A opinião pública vê as greves sindicalizadas, por exemplo, com desconfiança e até com desprezo às vezes.
No caso de algumas ongs e associações, há também uma situação crítica. Apesar de diversas delas prestarem um serviço importantíssimo para variadas camadas sociais, não podemos negar que ocorreu uma metamorfose numa parcela delas: metamorfosearam-se em grandes empresas de lavagem de dinheiro, disfarçadas de prestadoras de serviços sociais benemerentes.
A opinião pública antes de ver os partidos, os sindicatos, as associações e as ongs como plataformas sociais de inserção e de luta, enxerga-os como instituições quase mafiosas e ineficientes, salvo alguns casos específicos. De maneira geral, nossas organizações sociais tradicionais hoje são mais instituições de caráter duvidoso que propriamente que grupos de ação afirmativa.
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